Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas



Descargar 1.89 Mb.
Página6/6
Fecha de conversión10.12.2017
Tamaño1.89 Mb.
1   2   3   4   5   6
Aceso em: 20 fev. 2009.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Direitos sexuais, direitos reprodutivos e métodos anticoncepcionais. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. Manual de Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Programa Nacional de DST e Aids. Brasília: Ministério da Saúde. 2006. 140 p. Série Manuais n. 68 4.ed.

106

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

CARVALHO, MLO; PIROTTA, KCM; SCHOR, N. Participação masculina na contracepção pela ótica feminina. Revista de Saúde Pública v. 35 p. 23-31. 2001.
DAMATTA, R. Tem pente aí? In: CALDAS, D. (Org.). Homens. São Paulo: Editora Senac, 2004, p. 31-49.
FERNÁNDEZ, P. M. Masculinidad: nuevas construciones o más de lo mismo? Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, v. 7 supl. 2 p. 13-34, 2001. Disponível em: Acesso em:16 set. 2007.
FIGUEIRÊDO NETTO, J. Entrevista. SECON - Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília. Disponível em: Acesso em: 20 fev. 2009.
GOMES, R. Sexualidade masculina, gênero e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008.
GOMES, R. et al. As arranhaduras da masculinidade: uma discussão sobre o toque retal como medida de prevenção do câncer prostático.
Revista Ciência e Saúde Coletiva vol.13 supl.6 p. 1975-84.2008.
GOMES, R.; NASCIMENTO, E.F.; ARAÚJO, F.C. Por que os homens buscam menos os serviços de saúde do que as mulheres? As explicações de homens com baixa escolaridade e homens com ensino superior. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23 supl. 3 p. 565-574, mar. 2007.
GUERRA, M.R.; MOURA GALO, C.V.; MENDONÇA, G. A. S. Risco de câncer no Brasil: tendências e estudos epidemiológicos mais recentes.
Revista Brasileira de Cancerologia v. 51 supl. 3 p. 227-234. 2005.
GUERRIERO, I. ; AYRES, J. R. C. M.; HEARST, N. Masculinidade e vulnerabilidade ao HIV de homens heterossexuais, São Paulo, SP. Revista de Saúde Pública v. 36 Supl. 4 p.50-60. 2002.
HAIKEN, E. Virtual virility, or, does medicine make the man? Men and Masculinities, v.2 supl.4 p. 388-409. 2000.
JORDAAN, S. África do Sul: A forma pela qual a resposta do governo ao HIV não consegue responder à masculinidade. Ponto de Vista. Intercâmbio, 2007. Disponível em Acesso em: 10 mar 2009.


107

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

LOURO, G.L. Pedagogia da sexualidade. In: LOURO, G.L. (Org.). O Corpo Educado: Pedagogias e Sexualidades. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2000. p. 07-34.
MAIA, C; GUILHERM, D; FREITAS, D. Vulnerabilidade ao HIV/Aids de pessoas heterossexuais casadas ou em união estável e colaboradores. Revista de Saúde Pública v. 42 supl. 2 p. 242-8.2008.
MIRANDA et al. Práticas de diagnóstico precoce de câncer de próstata entre professores da Faculdade de Medicina – UFMG. Revista da Associação Méica Brasileira vol. 50 supl. 3 p. 272-5. 2004.
NASCIMENTO, E. F. ; GOMES, R. Marcas identitárias masculinas e a saúde de homens jovens. Cadernos de Saúde Pública vol. 24 p. 1556-64. 2008.
REBELLO, L. E. F. S.; GOMES, R. Iniciação sexual, masculinidade e saúde: narrativas de homens jovens universitários. Revista Ciência e Saúde Coletiva vol. 14 supl. p.653-60. 2009.
RODRIGUES JR, O. Impotência sexual - algumas dúvidas. Disponível em:
homem.com.br/artigo.php?id_artigo=281&id_categoria=13> Acesso em: 20 fev. 2009.
SANTOS, R.B; BRUNS, M.A.T. Homens com câncer de próstata: um estudo da sexualidade à Luz da perspectiva heideggeriana. Dissertação de Mestrado (não publicada) apresentada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/ USP – Dep. Psicologia e Educação. Ribeirão Preto, 2006. 243p.
SILVA, C.G.M. O significado de fidelidade e as estratégias para prevenção da Aids entre homens casados. Revista de Saúde Pública vol. 36 Supl. 4 p.40-9. 2002.
VINHAL, M. Disfunção erétil. Revista Vigor – Movimento e Saúde.
Thesaurus Editora de Brasília. Disponível em: Acesso em: 21 fev. 2009.
WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Revista Estudos Feministas v. 2 p. 460-82. 2001.



108

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

6.
HOMENS JOVENS E OS ATROPELOS DA HETEROSSEXUALIDADE: CONTRACEPÇÃO E ABORTO

Maria Luiza Heilborn61

Instituto de Medicina Social – Universidade do Estado do Rio de Janeiro
No âmbito dos estudos sobre gênero e sexualidade, o tema da masculinidade adquiriu grande visibilidade nas últimas décadas. No final do século passado, o gênero masculino foi transformado em objeto científico. Os homens e as masculinidades não se constituem em fenômenos à espera de um analista que os colocasse sob a mira de uma lupa. Como Foucault e os estudos sobre gênero e a ciência de inspiração feminista demonstraram, a maneira pela qual os saberes científicos constróem seus objetos não é uma operação simples e seus desdobramentos sociais são imprevisíveis.
A construção de novos objetos científicos supõe processos de dominação que atingem determinados grupos sociais; os loucos, as mulheres, os sexualmente desviantes, as crianças e os velhos, para os quais as ciências biomédicas construíram disciplinas especiais (psiquiatria, ginecologia, pediatria e gerontologia). Os homens – organismo, comportamento e valores socialmente atribuídos ao gênero masculino – foram capturados pela especulação científica. Até recentemente, tudo se passava como se os homens, na qualidade de representantes do indivíduo universal, fossem seres humanos não marcados por quaisquer atributos de gênero. E por isso aparentemente menos “objetificáveis”. Tal opacidade fazia com que as soluções para problemas específicos fossem menos conhecidas.

61 Professora Adjunta do Instituto de Medicina Social – Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora do PROCIENCIA e do CNPq



109

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

É possível postular a correlação entre a emergência do masculino como objeto de reflexão das ciências humanas e a dissolução de alguns dos privilégios sociais que a identidade de gênero historicamente asssegurava aos homens. Provável reflexo de uma suposta “crise” imposta à identidade masculina a partir dos anos 60, provocada pela segunda voga feminista e pela emergência do movimento homossexual. Violência doméstica, assédio sexual, monopólio de postos e de funções no mercado de trabalho, atitudes homofóbicas etc., impôs-se um maior distanciamento frente a comportamentos e valores que, até então, estavam amplamente naturalizados, entendidos como inerentes ao corpo e ao mundo masculinos. A masculinidade começa a ser mais claramente percebida como culturalmente específica, variando entre distintas sociedades e no âmbito de um mesmo contexto social, segundo diferentes períodos de sua história62.
A relevância social adquirida pela temática articula-se, obviamente, à possibilidade de financiamentos de pesquisas e intervenções que cada vez mais privilegiam os integrantes do sexo masculino como aqueles a quem se cumpre conhecer, interrogar e mesmo alterar valores e comportamentos. A análise da lógica e da visão de mundo masculinas expressas na articulação entre sexualidade, relações de gênero e organização da família tornou-se mais que nunca fundamental.
Além de revelarem a existência de diversos (e, às vezes, divergentes) modelos de masculinidade em uma mesma sociedade, os estudos de gênero propõem que se estude também o modo pelo qual as diferentes hierarquias sociais (de gênero, classe, raça ou idade) incidem umas sobre as outras, modulando-se mutuamente. Nesse sentido, os atributos de gênero se constróem também de maneira situacional. Tal perspectiva tem orientado as pesquisas sobre sexualidades masculinas que venho conduzindo há alguns anos.

6.1. Homens, heterossexualidades e o problema da contracepção / reprodução.
Minha incursão pela temática das masculinidades tem perseguido algumas inquietações pessoais, sobretudo, acerca da relação entre heterossexualidades e reprodução. Tais inquietações derivam mais de minha condição de ator social do que do papel de investigadora da vida


62 Cumpre notar que nos trabalhos pioneiros de Margaret Mead, o caráter socialmente construído dos papéis sexuais já era objeto de reflexão no âmbito da antropologia social.



110

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

coletiva, mas ainda assim elas persistem. Por que os homens não tomam cuidado com a possibilidade de engravidamento da parceira quando não desejam ter filhos? Por que não existem políticas públicas que se dirijam especificamente a esta parcela da população, transmitindo conhecimentos confiáveis sobre como se prevenir dessa eventualidade?
"Os homens quase não pensam nessas horas", argumenta Beto (22 anos, carioca) que foi pai na adolescência e reflete o pensamento mais comum sobre contracepção entre rapazes. Diante de um conjunto de convenções acerca da sexualidade masculina e da sua intrínseca relação com as relações de gênero cabe às moças saber cuidar-se para não engravidar. A atribuição dessa responsabilidade a elas e o baixo envolvimento deles nos cuidados que deveriam fazer parte da relação sexual é um dos achados mais correntes nas investigações sobre sexualidade e jovens no Brasil.
A impossibilidade legal do aborto deve integrar o leque de fatores contemplados por estudos sobre sexualidade e contracepção / reprodução, em especial, em articulação com o tema da juventude. Entre os jovens, ainda em fase de aprendizado do exercício da sexualidade com parceria e do contexto relacional ali implicado, a idéia do aborto tende a estar presente desde o momento em que se constata a falha contraceptiva. A interrupção da gravidez envolve um processo delicado e controverso desde a notícia e revelação da gestação à família, ao parceiro ou aos pares, até a deliberação de interrompê-la ou não com os recursos disponíveis; uma vez que tal procedimento não é acessível a qualquer adolescente que o deseje. Na juventude, dependendo da inserção de classe e da disponibilidade de recursos materiais próprios, homens e mulheres encontram-se em situação de dependência de seus familiares; por isso, a influência e a autoridade dos pais sobre os jovens devem ser tomados como obejto de exame. Não raro, moças e rapazes omitem de suas famílias a informação da gravidez. É o jovem casal quem busca recursos para o aborto e o concretiza. Esse tipo de situação implica focalizar os modos de negociação no par, marcados por relações assimétricas de gênero.
No que tange ao tema do aborto, é fundamental ter em vista que a dinâmica das relações de gênero em diferentes contextos engendra soluções variadas para a gestação imprevista: o rapaz envolvido pode ser totalmente excluído da decisão; pode participar ativamente dela; pode estar ausente do processo pela pressão da família da parceira; ou mesmo, ser um ator decisivo pela solução de término da gravidez ao manifestar não querer ser pai; entre outras possibilidades. Contudo, embora o gênero se apresente como um fator de grande relevância tanto na



111

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

condução das práticas contraceptivas quanto no processo decisório pelo aborto, frequentemente, os estudos sobre reprodução e aborto excluem a participação dos homens (Cunha e Monteiro, s/d; Ehrenfeld, 1999; Leal e Legoy, 1995).
Este texto reúne dados provenientes de duas pesquisas que foram motivadas por essas questões: a pesquisa Gravad – Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil, que teve seu trabalho de campo realizado entre 1999 e 200263 (consideradas as etapas qualitativa e quantitativa); e a pesquisa HEXCA –
Heterossexualidades, contracepção e aborto (em andamento), cujo trabalho de campo foi conduzido entre 2007 e 2008 na cidade do Rio de Janeiro 64. As idéias aqui esboçadas buscam tornar o aborto visível nas histórias de vida de homens, em particular enfocando-os como atores nos processos de decisão. O abortamento voluntário é pensado aqui como uma idéia possível diante de uma gravidez imprevista. A interrupção da gestação um lugar legítimo entre os eventos relativos à reprodução (Bajos e Ferrand, 2002; Peres, 2003).
Na pesquisa GRAVAD foram investigados jovens de ambos os sexos, entre 18 e 24 anos, que experenciaram (ou não) uma gravidez antes dos 20 anos. Os entrevistados eram pertencentes a distintos estratos sociais. No que concerne ao aborto, verificou-se que as investigações sobre a gravidez na adolescência – definida pela OMS como a que ocorre entre 10 e 20 anos incompletos (WHO, 2001) – se limitam a tratar dos condicionantes da gravidez, sem levar em conta a influência da ilegalidade nas consequências da tomada de decisão dos jovens relativa à interrupção ou prosseguimento da gestação. Assim, os estudos não enfocam problemas específicos enfrentados pelos adolescentes face à opção pelo aborto; tais como: as formas de acesso a recursos materiais, a premência de tempo para a realização da intervenção em contexto de ilegalidade, a menoridade civil, a consulta a um médico, a realização de

63 Este artigo examina os dados resultantes da etapa qualitativa da pesquisa Gravad (“Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil” 1999-2002), que investiga os comportamentos sexuais e reprodutivos de jovens residentes em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. Foram realizadas 123 entrevistas semi-estruturadas, a partir de um critério de cotas pré-definido.2 25
64 Os dados aqui apresentados, coletados em duas investigações envolvendo as temáticas sexualidade e reprodução, foram preliminarmente discutidos no artigo “Cogitação e prática do aborto entre jovens em contexto de interdição legal: o avesso da gravidez na adolescência” (Peres e Heilborn, 2006) e no paper “Trajetórias Juvenis Femininas e Masculinas: contracepção e aborto” (Heilborn, Brandão e Cabral, 2009) – trabalho apresentado no Congresso da Latin American Studies Association (LASA)e na dissertação de mestrado de Cabral (2002).



112

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

exames, até efetivamente a concretização do aborto em clínicas clandestinas ou pelo uso de medicamentos sem controle adequado. A investigação dessas questões é dificultada, sobretudo, pelo enquadramento jurídico da prática do aborto como ilegal65 (Ramirez, 1999; Peres e Heilborn, 2006).
Em 2007 teve inicio a pesquisa HEXCA66. Trata-se de uma investigação socioantropológica acerca das práticas contraceptivas e do abortamento voluntário. A pesquisa entrevistou 30 homens e mulheres de diferentes faixas etárias (18 a 27 anos e 40 a 49 anos) e segmentos sociais no Rio de Janeiro, Brasil. Nas entrevistas em profundidade, buscou-se contemplar eventos contraceptivos e/ou reprodutivos, sobretudo, as circunstâncias biográficas e sociais que levaram à interrupção da gravidez. Neste texto, me deterei apenas ao conjunto de 13 entrevistas realizadas com rapazes de camadas médias e populares.

6.2. Narrativas biográficas em duas pesquisas
A abordagem do tema da contracepção e do aborto nas duas pesquisas conferiu atenção especial ao relato das circunstâncias envolvidas nos eventos de gravidez e de interrupção voluntária da gestação. A utilização em ambas as investigações de roteiros semi-estruturados, contendo módulos relacionados à trajetória de vida dos entrevistados, permite a comparabilidade dos depoimentos coletados. Sobre o tema aqui em exame, foram investigados: a idade do parceiro (a); a prática contraceptiva – se conversaram sobre como se prevenir antes primeira relação sexual, quem era o responsável pela compra e o uso do método anticoncepcional, irregularidades na utilização da contracepção etc.–; e as circunstâncias em que se optou e viabilizou a realização do aborto. Nesse sentido, é relevante apontar que as duas investigações trabalharam com a distinção entre métodos masculinos – condom e coito interrompido, considerados de baixa eficácia – e métodos femininos – pílula, camisinha feminina, DIU etc.
Deve-se também destacar que, em ambas as pesquisas, a aproximação com os informantes para a realização das entrevistas em profundidade se


65 As leis brasileiras não punem o aborto apenas em duas circunstâncias: quando resulta de estupro ou no caso de risco de vida para a gestante.
66 Investigações análogas também estão sendo realizadas nas regiões metropolitanas de Buenos Aires, de Bogotá e Montevidéu, sob coordenação do Centro de Estúdios de Estado y Sociedad
(Argentina), da Universidad Nacional de Colombia e da Universidad Nacional de Uruguay, com vistas à análise comparativa dos dados nos quatro países.



113

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

deu por redes informais de sociabilidade. Ao longo das entrevistas67, buscou-se acessar da forma mais minuciosa possível a sucessão de acontecimentos envolvendo episódios de gravidez imprevista nas trajetórias dos informantes, desde a constatação da gestação até escolhas em prol de sua continuidade ou interrupção. Essa abordagem possibilitou a obtenção de histórias com tentativas (bem-sucedidas ou não), desistências ou até ausência de referência e intenção a essa possibilidade. Foi solicitada aos jovens uma descrição detalhada do processo decisório: como soube da gestação e do aborto; a reação diante da notícia; os tipos de apoio recebidos; a participação das famílias na escolha de manutenção (ou não) da gestação; as circunstâncias e o(s) método(s) empregado(s) na interrupção da gravidez; além das concepções e valores dos jovens sobre a gravidez e o aborto. As investigações também abrangeram as cogitações em torno da prática, as tentativas mal sucedidas de abortamento, e o contexto social e relacional em que se delinearam os eventos.
No caso da pesquisa Gravad sobressaiu o numero três vezes superior de declarações masculinas sobre aborto quando comparado ao de mulheres (Peres e Heilborn, 2006). Esse predomínio de experiências masculinas com o abortamento voluntário foi entendido como possível efeito de declaração: os rapazes relatariam com maior facilidade eventos de gravidez e aborto nos quais não se sentem necessariamente implicados ou responsáveis. Muitos jovens afirmaram não saber ao certo se a gravidez ocorreu, ou a quem cabia a paternidade. Pode-se ainda aventar se esse maior número de abortos declarados não decorre do fato de que os homens tendem a relacionar-se sexualmente com um maior número de parceiras eventuais no início de sua vida sexual. Enquanto a trajetória das moças entrevistadas, de modo geral, é marcada por relações afetivas duráveis; as narrativas masculinas são caracterizadas por relacionamentos, com forte ênfase na sexualidade sem o compromisso do vínculo afetivo (Heilborn, 1995). Isso somado, sobretudo, a baixa incorporação pelos homens dos cuidados contraceptivos (Leal e Legoy, 1995) resultaria em sua maior exposição potencial a situações de engravidamento de namoradas e “ficantes”.
Na pesquisa em que a prática contraceptiva e o abortamento voluntário foram os temas centrais de investigação (HEXCA), o quadro de maior


67 Os entrevistadores de ambas as pesquisas qualitativas eram, em sua grande maioria, estudantes de pós-graduação em ciências sociais, com experiência anterior em pesquisa qualitativa, treinados previamente para a temática. Foi assegurada a confidencialidade das declarações e empregado consentimento informado.



114

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

declaração masculina não se repetiu. Houve resistência dos homens a tratar do tema, e, portanto, dificuldade de cumprimento da quota estabelecida. Foram entrevistados 8 rapazes de camadas populares e 5 rapazes de camadas médias. O fato de desejarmos ouvir também os homens acerca de suas experiências envolvendo abortos suscitou estranhamento em campo, já que o assunto é considerado estritamente feminino, sendo entendido como algo sobre o que os homens não tinham o que falar (Arilha, 1998; Ramirez, 1999). O diferencial de classe é notável: jovens de segmento popular foram os que mais se negaram a falar sobre o assunto. Assim, o alto grau de rejeição a participar da pesquisa é indicativo de que, como a contracepção, o aborto não demanda reflexão dos homens, em particular para os de inserção popular.

6.3. Métodos de abortamento empregados
Há variedade de métodos mencionados pelos jovens em tentativas e na realização bem sucedida de abortos. O Misoprostol, outros “remédios” (inclusive os chás tidos abortivos) e as clínicas ilegais estão entre os meios de abortamento mais referidos por eles. Em ambas as pesquisas nota-se, por parte dos rapazes dos segmentos médio e popular, ausência de menção a métodos perfurantes, como sondas ou correlatos68; mas, a maioria deles declararou desconhecimento sobre o método utilizado pela parceira. Nas tentativas de abortamento, predomina o recurso aos chás considerados abortivos, o que pode ser considerado indicativo de uma estratégia de testagem de possível gravidez e de “fazer descer as regras”, sem nomeação dessa prática como tentativa de aborto (Osis, 1996; Leal e Legoy, 1995). A menção a um método não exclui o recurso a qualquer outro: nos relatos figuram combinações de chás com “remédios”, de injeções com Misoprostol e de chás com injeções.
As condições em que foram realizados os abortos variam significativamente em função do pertencimento social dos entrevistados. Os casos descritos pelos jovens de camadas populares remetem para o cenário de pobreza em que vivem e retratam a maior dificuldade em se conseguir os meios para que a parceira abortasse, recorrendo-se mais a métodos inseguros. As narrativas dos jovens de segmentos médios descrevem episódios de aborto que poderiam ser classificados como


68 Apenas as moças de segmento popular que participaram da pesquisa HEXCA declararam ter utilizado esse tipo de método.


115

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

assépticos”, sempre realizados em clínicas, ainda que clandestinas. Nenhum rapaz relatou complicações de saúde das parceiras em função dos procedimentos utilizados para interromper a gestação.


A maioria dos informantes do sexo masculino declarou apenas 1 episódio de aborto em suas trajetórias, enquanto entre as moças esse número de declarações 4 vezes maior. Os abortos narrados ocorreram, predominantemente, no início da trajetória afetivo-sexual dos rapazes. Nesse sentido, chama atenção a recorrência com que foram levadas a termo as gestações subsequentes.

6.4. A decisão de abortar
Os relatos sobre os processos de tomada de decisão acerca do aborto coletados nas duas pesquisas trazem uma variedade de situações em que se delineia a opção pela interrupção voluntária da gravidez. Nas conversas que se seguem a suspeita e constatação de uma gravidez não prevista, a cogitação do aborto está frequentemente presente, o que demonstra sua aceitabilidade nos diálogos entre parceiros, pares e famílias. Muito distante do que constitui a Tônica geral do discurso público – de grande rejeição à proposta de legalização do aborto no país (cf. Católicas pelo Direito de decidir...), o aborto não é alvo de uma interdição total: ele é aventado entre e por familiares dos jovens – aparecendo também nos relatos sobre as experiências de amigos e terceiros. Os interlocutores são parte importante do contexto decisório: isso significa dizer que a decisão é raramente tomada pelos jovens de forma solitária, principalmente porque as famílias se posicionam, são importantes fontes de consulta e oferecem condições materiais e apoio.
Entre os entrevistados pela pesquisa GRAVAD, 62% das moças e 45% dos rapazes compartilharam a notícia da gravidez com pares e familiares. As mães, em especial, são consideradas coadjuvantes fundamentais no enfrentamento da decisão, podendo vir a desempenhar o papel de protagonistas nesse processo. O relato a seguir evidencia tal cenário. Trata-se de um caso em que a mãe da namorada de um dos informantes, oriundo de camadas médias e residente em Salvador, impõe ao jovem casal a realização do aborto – o que para ele foi um alívio. Em menos de um ano, a moça engravidou duas vezes e ambas as gestações foram interrompidas por intervenção de sua família. Foi a sua mãe quem a conduziu a uma clínica especializada e pagou pelo procedimento.

116

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)


Ela já teve uma gravidez antes dessa, mas abortou. Ah, no momento não tinha nenhuma preparação psicológica pra ser pai, era garotão. A família dela condenou na hora e a gente nem pode impor resistência. A mãe dela foi logo levando ela pro médico. A mãe dela pagou setecentos reais. (Jovem, segmento médio, Salvador – Pesquisa GRAVAD).
Os contextos sociais são muito heterogêneos no país em razão da profunda desigualdade social e de acesso a recursos simbólicos e materiais. É preciso considerar a importância conferida no Brasil, em especial no contexto dos segmentos populares, ao condicionamento da reprodução à constituição de um núcleo conjugal. A gravidez pode se tornar mais aceitável para a família da moça quando o rapaz se compromete a levar a cabo um projeto conjugal / familiar.
Nas narrativas dos rapazes prevalece um consenso em torno da autonomia da parceira na decisão pelo aborto. Entre os jovens de segmento médio entrevistados pela pesquisa HEXCA tal postura é creditada a uma primazia feminina no ato de decidir sobre seu próprio corpo, vida reprodutiva e a possibilidade da maternidade em um dado momento de sua trajetória de vida (Ramírez, 2000; Ramirez-Gálvez, 1999). Três entrevistados de camadas médias (em um conjunto de 5) afirmaram que teriam o filho, mas não chegaram a cogitar tal hipótese com as parceiras, deixando-as decidir sozinhas e apoiando-as na decisão. Como destacou um deles: Na minha posição política, quem decide não sou eu, nem nós dois, é ela (26 anos, camadas médias – Pesquisa HEXCA).
Já entre o segmento popular predomina a tendência dos rapazes a se declarar contra o aborto, embora considerem que o desfecho da gestação depende da mulher. Não se trata, para os populares, do reconhecimento do direito das mulheres a decidir sobre o próprio corpo, mas antes, da percepção de sua capacidade de definir o fim ou a continuação da gestação como bastante reduzida. O depoimento abaixo, extraído do relato de um dos entrevistados pertencentes a esse segmento, é exemplar. Diante da posição da parceira por interromper a gravidez apesar de seus apelos, ele dá a ela o dinheiro para o Misoprostol, mas busca se eximir da responsabilidade pelo aborto. O rapaz expressa ressentimento pela impossibilidade de ter tido que acatar passivamente a decisão da parceira:
aí eu falei: ‘ou você compra o remédio, ou começa a comprar roupa pro bebezinho’. Sendo que ela resolveu comprar o remédio. Fiquei triste com isso, entendeu? A parada que é chato entendeu? Meu filho podia tá andando, correndo pra lá e pra cá, (...) Porque não adianta você falar pra mulher assim: ‘você vai tirar!’, depende dela, né? Um colega meu fez



117

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

a mesma coisa, deu o dinheiro pra mulher, ele queria que a mulher tirasse, ela falou ‘tá bom’, então me dá o dinheiro. Ele deu o dinheiro pra ela e ela foi lá e comprou roupa pro bebê (...) uma coisa que eu queria que acontecesse comigo, mas não aconteceu. (20 anos, segmento popular, Rio de Janeiro – Pesquisa HEXCA)
De todo modo, as narrativas dos jovens de ambos os estratos sociais contemplados pela pesquisa HEXCA – o que também pode ser afirmado para os informantes da pesquisa GRAVAD – demonstram que a possível interrupção de uma gravidez é uma esfera em que os homens ocupam posição subalterna. Há o reconhecimento da autoridade de suas parceiras sobre a decisão a ser tomada, ainda que o façam por diferentes razões. Uma mulher pode decidir pelo aborto de forma unilateral, enquanto o parceiro, para influenciar na decisão, precisa contar com um consenso que nem sempre existe, apelar para estratégias de convencimento (não assumir a paternidade, promessas futuras de conjugalidade caso o aborto seja feito, etc.) e/ou construção de alianças com atores em torno do par (familiares, amigos). Assim, em especial quando não se trata de uma escolha consensual, a tomada de decisão sobre um aborto constitui um momento de reversão na hierarquia de gênero; situação que nem sempre é vivenciada de forma confortável mesmo nas camadas médias, onde tende a haver relativa adesão a discursos pró-equidade de gênero.
Não foram raros casos em que os rapazes não foram consultados pela parceira sobre o aborto. Alguns deles só souberam da gravidez após a moça ter realizado o procedimento. Não obstante, deve-se destacar que essa tendência a externalidade masculina no desfecho das gravidezes imprevistas pode ser uma opção, a qual envolve distintas circunstâncias. Em algumas situações, por exemplo, o rapaz sabe da gestação e da intenção da parceira de interrupção da gravidez, mas evita envolver-se, por não reconhecer a paternidade. O depoimento abaixo, de um dos informantes da pesquisa GRAVAD, é ilustrativo. Uma ex-parceira engravidou e, como já estavam separados, ele não tinha certeza se o filho era seu. Assim, não quis saber da gestação. A moça recorreu sem sucesso ao Misoprostol, tendo falecido posteriormente em decorrência de complicações no parto. Somente após saber que a jovem havia morrido, o entrevistado se interessou em verificar se o filho era dele.
[...] Aí tudo constava que era meu, sendo que a mãe dela não sabia que ela estava grávida. Mas... os amigos dela, todos sabiam. Ela começou a tomar remédio, não desceu a criança, ai morreu, ela não resistiu. De tanto tomar remédio ficou doente e não conseguiu... morreu no parto, a criança sobreviveu. Tentei depois conversar com a avó dela pra falar se eu podia fazer um exame para saber se o filho era meu. Não consegui



118

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

conversar. (Jovem de 19 anos, sem paternidade, segmento popular, Rio de Janeiro –, Pesquisa GRAVAD).
A gravidez da parceira pode ser admitida provisoriamente, já que a gestação não foi suficientemente constatada. Há incerteza inicial se, de fato, a gravidez da parceira ocorreu, se houve aborto, ou ainda há dúvidas sobre a paternidade. Isso certamente amplia a complexidade de categorização dos casos e tentativas de aborto, na medida em que os homens se referem a situações sobre as quais as informações são incertas, sobretudo quando já estão afastados das parceiras à época da descoberta da gravidez.

6.5. Considerações finais
Constatou-se em uma pesquisa a expressiva presença de cogitação do aborto entre os entrevistados, face a uma gravidez imprevista na adolescência; o que significa que os jovens não aceitam a falha contraceptiva com naturalidade, como uma imposição inescapável. Para os jovens o aborto é uma alternativa ainda que em um cenário de ilegalidade e rejeição moral. Várias barreiras são enfrentadas pelos jovens para regular a reprodução, especialmente num contexto como o brasileiro, no qual o aborto é ilegal e o acesso à contracepção e aos serviços de saúde permanece insuficiente, sobretudo em um contexto em que a informação sobre contracepção não é dirigida à população masculina.
Os dados das duas investigações aqui apresentadas demonstram uma pregnancia nas gerações mais jovens de representações e valores que atrelam a contracepção e a reprodução ao feminino. O parco envolvimento dos homens com a anticoncepção é, em geral, uma situação confortável que os permite viver despreocupadamente os prazeres da heterossexualidade. Contudo, no caso de gestações imprevistas, nem sempre a situação se constitui da mesma forma. A falta de controle sobre a possibilidade de ter, ou não, um filho é vivenciada como uma inversão hierárquica que causa desconforto na identidade de gênero dos entrevistados. Tal desconforto, entretanto, não se reverte em um uso mais regular de contracepção nos relacionamentos subsequentes, nem na adoção de métodos de controle masculinos.
A história de David, 22 anos, vizinho de Beto em uma comunidade popular carioca, é exemplar. Quando começou a ter relações com a moça



119

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

recém-chegada (“uma menina que se fazia de difícil”), diz ter esgotado em duas semanas as “cinco caixas de camisinha” que havia comprado. Suspender o uso do preservativo resultou em gravidez, bem recebida pelo rapaz. A decisão de ter o bebê ele explicou assim: “Tive vontade de ter o neném porque todos os meus colegas tinham, eu era o único que não era pai. Na época eu me sentia muito sozinho. Por mais que eu tivesse muitas namoradas, eu me sentia sozinho. Então, eu preferi ter o neném”.
O relato de David demonstra também o processo de aceitação do bebê, quase natural para famílias de menor poder aquisitivo, nas quais existe uma grande valorização da família. A criança que chega é motivo de alegria e de união entre as famílias dos jovens, importante nas despesas e no suporte financeiro ao novo casal. Ainda assim, a gravidez na adolescência produz impacto importante na vida desses jovens, tornando ainda mais difícil a entrada na vida adulta.
Um dos fatores que pode mudar esse quadro é a educação sexual nas escolas, a partir de um debate franco sobre responsabilidades que estão implicadas no direito à sexualidade. Programas e serviços de saúde voltados especificamente para adolescentes também podem melhorar as condições de acesso a informação sobre métodos contraceptivos. Na abertura de horizontes de possibilidades de futuro para esses jovens está a maior chance de reduzir a gravidez na adolescência, dando um novo sentido às exigências de contracepção.
Esse cenário é revelador da complexidade da temática e da necessidade de que cada vez mais pesquisadores se detenham sobre as articulações entre masculinidades, sexualidades e as dimensões da reprodução (contracepção, gravidez, maternidade e paternidade, e aborto).


Referências
ALEGRIA FVL, CHOR N, SIQUEIRA, AAF. Gravidez na adolescência: estudo comparativo. Revista de Saúde Pública 1989; 23(6): 473-7
AQUINO EML et al. Adolescência e reprodução no Brasil: a heterogeneidade dos perfis sociais. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19 (Sup. 2): S 377-88.

120

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

ARILHA M. Homens: entre a “zoeira” e a “responsabilidade”. In: Arilha M, Ridenti S, Medrado B (Orgs.). Homens e masculinidades. São Paulo: ECOS; 1998: 51-77.
ÁVILA MB. Direitos sexuais e reprodutivos: desafios para as políticas de saúde. Cadernos de Saúde Pública 2003; 19 (Sup.2):S465-469.
BAJOS N, FERRAND M (eds) et l`équipe GINÉ. De la contracepcion à l`avortement:sociologie dês grossesses non prévus. Paris: INSERM, 345 p. (Coll. Questions en santé publique); 2002
BARBOSA MR, ARILHA M. A experiência brasileira com o Cytotec. Revista Estudos Feministas 1993; Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ, 1(2):408-17.
BAILEY PE; BRUNO ZV; BEZERRA MF; QUEIRÓS I; OLIVEIRA CM. Adolescent`s decision-making and attitudes towards abortion in north-east Brazil. Journal Biosocial Science; 35 (1):71-82, 2003.
BEMFAM. Pesquisa Nacional Saúde Reprodutiva e Sexualidade do Jovem. 1989-1990. Rio de Janeiro;1992.
BEMFAM. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde 1996. Rio de Janeiro:Bemfam- Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil;1997.
BERQUÓ E, CAVENAGHI S. Increasing adolescent and youth fertility in Brazil: a new trend or one-time event? Presented at the annual meeting of Association of America, Philadelphia, Pennsylvania, March 30 to April 2, 2005B
BLAY E. Projeto de Lei sobre o aborto. Revista Estudos Feministas, 1993;1(2):430-4.
BOURDIEU P. Sociologia. Organização de Renato Ortiz. Coordenação de Florestan Fernandes. São Paulo: Ática; 1983.
_________. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
BOZON M. Sociologie de la sexualité. Paris : Nathan Université (Coll.Sociologie,128) ; 2002.
BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde do Adolescente:Bases Programáticas. 2a.ed. Brasília: Coordenação da Criança e do Adolescente; 1996.
BRASIL. Secretaria de Políticas Públicas. Área Técnica de Saúde da Mulher. Manual dos Comitês de Mortalidade Materna. 2a.edição. Brasília: Ministério da Saúde; 2002.


121

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

CABRAL, CS “Novos pais, jovens pais: vicissitudes da gravidez na adolescência entre jovens das camadas populares do Rio de Janeiro.” Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva/Instituto de Medicina Social/UERJ,2002
CAMARANO AA. Fecundidade e anticoncepção da população jovem. In: CNPD - Jovens acontecendo na trilha das políticas públicas. Brasília; 1:109-133; 1998.
CAMPBELL N, Franco K, Jurs S. Abortion in adolescence. Adolescence 1998; San Diego, CA, 92 (23):813-23
COSTA, SH. Aborto provocado: a dimensão do problema e a transformação da prática. In: Giffin K, Costa SH, organizadores. Questões de Saúde Reprodutiva. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1999.p.163-184.
CRESPIN J. Gravidez e abortamento na adolescência: novos dados, velhos desafios. Revista Paulista de Pediatria 1998; 16 (4): 197-200.
CUNHA A, Monteiro D. Gravidez na adolescência como problema de saúde pública. In: Monteiro D, Cunha A (orgs.). Gravidez na adolescência. Rio de Janeiro: Revinter; p. 32-42.
DADOORIAN D. Pronta para voar: um novo olhar sobre a gravidez na adolescência. Rio de Janeiro: Editora Rocco; 2000
DI GIOVANNI R. Projetos de vida: um estudo das representações femininas do aborto [Dissertação de Mestrado]. Campinas: Departamento de Antropologia Social, Universidade de Campinas; 1983.
DUARTE G. Contracepção e aborto: perspectiva masculina. [Dissertação de Mestrado]. São Paulo: Departamento Materno-Infantil, Universidade de São Paulo; 2000.B
EHRENFELD N. Female adolescents at crossroads: sexuality, contraception and abortion in Mexico. In: Mundingo A, Indriso C, editores. Abortion in the developing world. Part III: Adolescent sexuality and abortion. New Delhi:WHO; 1999. p. 368-86.
FERAND M, Jaspard M. L´interruption voluntaire de la grossesse. Paris: PUF;1987.
HEILBORN, ML. ; Aquino, E. ; Bozon, M. ; Knauth, DR. Aproximações sócio-antropológicas sobre a gravidez na adolescência. Horizontes antropológicos: sexualidade e AIDS 2002; 17:13-45
HEILBORN, ML. "A primeira vez nunca se esquece: trajetórias sexuais masculinas". Revista Estudos Feministas, 1998, vol.6 (Supl.2), pp. 394-405



122

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

HEILBORN ML, BRANDÃO ER, CABRAL CS. Trajetórias Juvenis Femininas e Masculinas: contracepção e aborto. Paper apresentado no Congresso de 2009 da LASA (Associação de Estudos Latino-Americanos). Brasil, Rio de Janeiro, de 11 a 14 de junho de 2009.
KATZ R. A. Adolescentes e maternidade: um destino, um problema, uma escolha? [Dissertação de Mestrado].Rio de Janeiro:Instituto Fernandes Figueira, Fiocruz; 1999.
LAURENTI R, Jorge MH, GOTLIEB S. Mortalidade de mulheres de 10 a 49 anos com enfâse na mortalidade materna. Brasilia: Ministerio da Saúde; OPAS; USP; 2002
LE VAN C. Les grossesses à l'adolescence. Normes sociales, réalisés vécues. Paris: Éditions L’Harmattan; 1998.
LEAL OF, LEGOY B. Pessoa, aborto e contracepção. In: Leal OF, organizador. Corpo e significado: ensaios de antropologia social. Porto Alegre: UFRGS; 1995. p-55-75.
MERCUCC VB, BONFIM JRA. Casos de desinformação farmacêutica:drogas EP de alta dosagem, acetado de medroxiprogesterona e misoprostol. In: Wolffers I, Hardon A, Jansen, organizadores. O marketing da fertilidade: menstruação aborto e indústria farmacêutica. São Paulo: Hucitec;1991.p113-128.
MONTEIRO M. Gravidez na adolescência no Estado do Rio de Janeiro (Brasil). Investigación en Salud, Rosario 1998; 1(1): 57-63.
OSIS, MJD. Dificuldades para obter informações da população de mulheres sobre o aborto ilegal. Revista de Saúde Pública 1996; 30(5): 444-51.
PAIVA AS; CALDAS MLC; CUNHA AA. Perfil psicossocial da gravidez na adolescência. In: Monteiro D, Cunha A, Bastos A, organizadores. Gravidez na adolescência. Rio de Janeiro:Revinter; 1998; p.7-30.
PERES SO. Aborto e juventude: um horizonte de possibilidades diante da gravidez na adolescência [Tese de Doutorado]. Rio de Janeiro: Instituto de Medicina social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2003.
PERES SO, HEILBORN ML. Cogitação e prática do aborto entre jovens em contexto de interdição legal: o avesso da gravidez na adolescência. Cadernos de Saúde Pública 2006; 22 (7): 1411-1420.

123

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

RAMIREZ-GALVEZ M. Os impasses do corpo: ausências e preeminências de homens e mulheres no caso do aborto voluntário [Dissertação de Mestrado]. Campinas: Departamento de Antropologia Social, Universidade de Campinas; 1999.
The Alan Guttmacher Institute (AGI). Aborto clandestino: uma realidade latino americana. Nova Iorque: The Alan Guttmacher Institute; 1994.
VILAR D, GASPAR AM. Traços redondos. A gravidez em mães adolescentes In: Pais JM, organizadores. Traços e riscos de vida: uma abordagem qualitativa dos modos de vida juvenis:Porto:Ambar;1999.
World Health Organization (WHO). Sexual relations among young people in developing conutries evidence from WHO case studies. Genebra:WHO, 2001.


124

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

7.
TRABALHO NÃO É TUDO, MAS É QUASE TUDO: HOMENS, DESEMPREGO E JUSTIÇA SOCIAL EM POLÍTICAS PÚBLICAS69

Gary Barker
International Center for Research on Women

Introdução
A frase que forma o título deste artigo foi dita por um jovem homem que eu entrevistei numa favela do Rio de Janeiro alguns anos atrás. Pensando sobre o seu futuro, suas expectativas, seu projeto de vida, sua identidade e o que realmente importava para ele e sua família, foi isto o que ele disse: “trabalho não é tudo, mas é quase tudo”. Mas poderia ser dito por um homem jovem, ou um adulto, na maior parte do mundo, de renda baixa ou média. Parece bastante óbvio afirmar que o papel de provedor, arrimo de família ou “homem trabalhor” (em quem masculinidade é definida como possuir trabalho), é talvez um universal, quiçá o universal de como sociedades, instituições, indivíduos e políticas públicas definem a masculinidade adulta. O silogismo, então, é: se masculinidade adulta é igual a trabalho, não ter trabalho significa não ser socialmente reconhecido como um homem adulto. Isto significa vergonha, estresse, depressão, falta de identidade social e, talvez para alguns – junto com vários outros fatores – participação em várias formas de violência armada.
Por que este é meu ponto inicial para pensar sobre políticas públicas e para pensar sobre ação coletiva e participação? Um dos meus pontos-


69 Esse artigo incorpora idéias e conclusões desenvolvidas junto com vários outros parceiros(as), incluíndo Margaret Greene, Marcos Nascimento, Christine Ricardo, Jennifer Schulte, Juan Manuel Contreras, Brian Helman, Peter Pawlak and Ravi Verma. Um agradecimento especial a todos(as) eles.



125

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

chave é que várias das causas a partir das quais nós temos tentado envolver homens – pelo fim da violência contra as mulheres, no aumento da participação de homens na vida de crianças, na promoção de saúde e de direitos de saúde, promoção de direitos para população LGBT – frequentemente perdem de vista ou ignoram o assunto que pode ser um dos mais importantes para os homens ao redor do mundo. Isto não quer dizer que estes temas são menos importantes. Mas se nós quisermos envolver homens em políticas públicas relacionadas à justiça de gênero e à justiça social, numa abordagem feminista, precisamos refletir mais sobre esse nexo entre trabalho e masculinidade. E eu acrescentaria que se nós quisermos realmente avançar na conquista de direitos e status para as mulheres, nós devemos envolver homens e mulheres na desconstrução dessa rigidez do papel social do trabalho (fora de casa) ser igual ao que é socialmente definido como “ser homem”.

7.1. Como as Políticias Públicas Geralmente Enxergam os Homens
Começaremos com algumas definições enquanto pensamos sobre homens, masculinidades e políticas de gênero. Gênero como um conceito refere-se a masculinidades e feminilidades, mulheres e homens, as relações entre eles e o contexto estrutural que reforça e cria essas relações de poder, mesmo que seja raramente tratado dessa forma. Na prática, gênero é tomado quase universalmente, e incorretamente, para se referir aos fatores sociais que dão forma apenas às realidades das mulheres e garotas70. Ao usar gênero para se referir a mulheres e homens e às relações entre eles, os devem os homens ser incluídos apenas para compensar as desigualdades que as mulheres enfrentam, ou também é possível conceber que os homens possuam suas próprias necessidades e vulnerabilidades, no que diz respeito ao gênero, que devem ser incluídas em políticas públicas? E o estresse econômico poderia ser considerado como tendo efeitos de gênero em mulheres e homens? Podem e devem políticas sociais perseguir um objetivo social, moldados a partir de uma nova visão de equidade de gênero e relações cooperativas entre homens e mulheres? Como o acesso a emprego e renda – e a exclusão social – se adequam a este discurso?

70 ICRW and Promundo (2010) What Men Have to Do with it: Public Policies to Promote Gender Equality. Washington, DC.



126

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

Historicamente, políticas públicas tem sido centradas nos homens, desenvolvidas por e para grupos específicos de homens e protegendo os privilégios de homens, ou, pelo menos, o privilégio de alguns homens. A pedra angular do direito das mulheres sempre foi identificar, questionar e transformar políticas, normas sociais e instituições que perpetuaram as desvantagens de mulheres e garotas. Esse processo, claramente, não está completo.
Contudo, se as políticas tem sido centradas nos homens, elas geralmente não entendem os homens como seres de gênero. Nem tem refletido uma compreensão da diversidade de identidades de homens e os aspectos contraditórios destas identidades. Alguns grupos de homens mantêm uma grande parcela de poder em relação a outros. Homens relativamente desempoderados – que são quase todos os de baixa renda – podem frequentemente ser invisíveis, já que os homens, de modo geral, detêm mais poder do que as mulheres.
Em outras palavras, políticas tem sido frequenteme genéricas em relação aos homens, assumindo que todos os homens são o mesmo e tem a mesma parcela de poder. Vinte anos de estudos em masculinidades clarificaram como homens são moldados por construções sociais de gênero e como essas normas de gênero masculinas e suas hierarquias de poder entre homens tornam muitos homens vulneráveis. Estas realidades são refletidas nas altas taxas de homicídio entre homens afro-brasileiros de baixa renda, maiores taxas de encarceramento entre homens afro-americanos nos Estados Unidos, e maiores taxas de contaminação por HIV entre homens que migram para trabalhar na Índia71. Também particularmente vulneráveis são os homens gays, ou atraídos pelo mesmo sexo, que por causa da homofobia institucionalizada em boa parte do mundo tornam-se vulneráveis ao HIV em consequência de terem negados seus direitos humanos básicos em muitos países.72
Ao mesmo tempo, as políticas têm adotado frequentemente compreensões estáticas sobre os homens, isto é, elas assumem que os homens não mudam, ou não mudarão rapidamente o bastante para fazer alguma diferença nas vidas desta geração de mulheres e garotas, garotos e homens. Por exemplo, programas de transferência de renda que colocam dinheiro

exclusivamente

na mão de mulheres são baseados em

pesquisas

71 Niranjan Saggurti,

Stephen L. Schensul and Ravi K. Verma. 2009. Migration,

Mobility and


Sexual Risk Behavior in Mumbai, India: Mobile Men with Non-Residential Wife Show Increased Risk. AIDS and Behavior. Volume 13, Number 5. Springer. Netherlands.
72 Ver Uganda policy on homosexuality. Disponível em http://www.guardian.co.uk/world/2010/jan/14/uganda-backpedals-on-gay-law



127

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

mostrando que maior parte desta renda (quando administrada pelas mães) irá ajudar a família, fazendo-se isto com boas intenções. Resumindo, na maioria dos contextos, a renda provida às mulheres como parte destas políticas provavelmente irá beneficiar mais a famílias do que quando dada aos homens. Mas, ao mesmo tempo, esta prática pode afirmar implicitamente uma crença de que os homens não irão mudar: os homens são na maioria “egoístas” e não são suficientemente envolvidos no bem-estar de suas famílias para ser confiados a eles este auxílio.
O desafio é como criar políticas que reconhecem a necessidade para empoderar as mulheres e pôr fim nas desvantagens econômicas e sociais associada às mulheres e à imediata realidade da relativa falta de participação dos homens na vida familiar comparada às mulheres. Ao mesmo tempo, é preciso questionar as estruturas subjacentes que reforçam a perpetuam estas desigualdades, dentre elas a pobreza e desigualdade de renda.
Focando especificamente o trabalho e os homens, as políticas, em sua maior parte, são cegas quando chegam a essa equação de trabalho e masculinidade; ou podemos ainda afirmar que elas tomam como pressuposto que os homens são apenas trabalhadores (e, portanto, não envolvidos no cuidado das crianças, por exemplo) ou amontoam todos os homens juntos, baixa renda, destituídos, classe média – aqueles que têm emprego estável e aqueles que não têm.

7.2. O Desafio de Falar sobre Homens de baixa renda
Se trabalho, renda e emprego são tão centrais para as relações de gênero, por que não falamos sobre eles? Por que eles não são mais centrais no nosso discurso e trabalho para refletir sobre masculinidades e políticas públicas e para organizar e envolver homens? Uma razão para isto é um assunto desafiador de se falar: não importa o quão pobre são os homens pois as mulheres geralmente são mais pobres. De fato, globalmente, mulheres recebem 22% menos do que homens 73(Banco Mundial, 2007). A falta de renda das mulheres relativamente aos homens é uma das principais causas do maior poder social dos homens como um todo. Com razão, políticas globais e nacionais em vários países focam em melhorar a renda das mulheres. Por sua vez, a evidência confirma que a participação das mulheres em iniciativas de microfinanças e outras


73 World Bank (2007) “Gender: Working Towards Greater Equality,” in Gender Equality as Smart Economics: A World Bank Group Action Plan. Washington, DC: World Bank.



128

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

abordagens economicamente empoderadoras podem levar a um número de benefícios para mulheres – incluído risco reduzido de HIV, reduções na violência por parceiros masculinos, crescimento do status e da mobilidade social – em consequência dos benefícios da própria renda e mudanças nas dinâmicas de poder.74 Este é um dos nossos princípios organizadores para equidade de gênero e precisamos de mais iniciativas nesse sentido.
Essas verdades moldaram gerações de auxílios à renda, transferência condicional de dinheiro e estratégias de alívio à pobreza. Cerca de 100 milhões de pessoas se beneficiam globalmente de programas de microfinanças hoje, a maior parte nos países mais pobres do mundo; a vasta maioria desses participantes – entre 70 e 80% são de mulheres.75 Similarmente, a maior parte de programas de transferência de renda para famílias de baixa renda provêem suporte direto para mulheres que são mães. As motivações para isso são louváveis, mas os resultados necessitam ser questionados.
Ao mesmo tempo, alguns autores tem argumentado que o foco nas mulheres ou a “feminização” dos programas anti-pobreza tem tido resultados limitados para aliviar as obrigações e os fardos de gênero das mulheres em lidar com a pobreza e, em alguns casos, além disso tem marginalizado elas, economicamente76. Pesquisas mostram que mulheres cumprem uma parcela desproporcional em atividades relacionadas ao cuidado ao redor do mundo, incluindo trabalho doméstico e cuidado infantil, limitando assim seu potencial para receber renda e perpetuando a desigualdade de renda entre homens e mulheres. Por exemplo, dados globais sugerem que mulheres gastam de duas a quatro vezes a quantidade de tempo dos homens no cuidado infantil. Um estudo multinacional incluindo países de baixa, média e alta renda afirmou que o tempo médio gasto em trabalho não remunerado por mulheres é mais do que duas vezes aquele dos homens, alcançando cerca de 10 vezes no caso da Índia e de outros contextos de baixa renda77. Do mesmo modo, evidências substanciais da América Latina e do Caribe mostram que os homens ainda não dividem o trabalho doméstico e atividades não


74 Kabeer, N. (2009) “Women’s Economic Empowerment: Key Issues and Policy Options,” SIDA Background Paper. Sussex: Institute of Development Studies.


  1. Ibid.




  1. Chant, S. (2007) Gender, Generation and Poverty: Exploring the 'Feminisation of Poverty' in Africa, Asia and Latin America. Ed. Cheltenham, UK: Edward Elgar, xxiv-428.




  1. Budlender, D. (2008) “The Statistical Evidence on Care and Non-Care Work across Six Countries,” Gender and Development Programme Paper 4, December 2008. Geneva: United Nations Research Institute for Social Development.



129

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

remuneradas de cuidado (mesmo quando eles vivem nos mesmos lares com suas parceiras) ainda que a participação das mulheres no mercado de trabalho assalariado tenha aumentado dramaticamente na região enquanto a de homens tenha estagnado ou declinado78. Em outras palavras, na maior parte do mundo, mulheres estão progressivamente ganhando renda fora de suas casas, tanto nos setores formais quanto informais, mas elas (ou outras mulheres ou garotas nos lares) continuam a cumprir com os maiores fardos de cuidado com outros membros familiares, crianças, doentes ou inválidos, e membros da comunidade que necessitam de cuidado.
Vários estudos confirmam que a responsabilidade quase universalmente especifica de gênero das mulheres de prover cuidado não remunerado mantêm suas baixas taxas de participação na força de trabalho e seus menores salários. Em várias partes do mundo, esta desigualdade está sendo agravada por uma maior carga de cuidado aos idosos que está aumentado devido a mudanças demográficas, e as populações em boa parte do mundo envelhece. De fato, numerosos estudos de países diversos como o Quirguistão (na Ásia Central) e o Brasil (na América do Sul) demonstram que o fator chave nas decisões das mulheres no mercado de trabalho continuam sendo o malabarismo entre trabalho fora de casa junto com o cuidado das crianças e outros membros da família79.
A carga crescente sobre as mulheres em combinar trabalho produtivo e cuidado é refletida nesse e em outros estudos sobre o uso do tempo mostrando que as crescentes horas trabalhando fora de casa não tem sido compensadas pelos homens. Isto está ocorrendo ao mesmo tempo que homens em vários países de baixa renda estão experienciando grande dificuldade em ganhar a vida, e mesmo assim os homens não estão aumentando significativamente suas contribuições para atividades de cuidado não remuneradas e trabalho doméstico80.


78 Barker, G. (2006) “Men’s Participation as Fathers in Latin America and the Caribbean: Critical Literature Review and Policy Options,” in M. Correia and I. Bannon, eds. The Other Half of Gender: Men’s Issues in Development. Washington, DC: The World Bank.
79 Morrison, A., and F. Lamana (2006) “Gender Issues in the Kyrgyz Labor Market,” Background paper for Kyrgyz Poverty Assessment. Washington, DC: World Bank. And Deutsch, R. (1998) “Does Child Care Pay? Labor Force Participation and Earnings Effects of Access to Child Care in the Favelas of Rio de Janeiro,” Office of the Chief Economist. Working Paper No. 384. Washington, DC: Inter-American Development Bank.
80 Chant, S. (2007) Gender, Generation and Poverty: Exploring the 'Feminisation of Poverty' in Africa, Asia and Latin America. Ed. Cheltenham, UK: Edward Elgar, xxiv-428.


130

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

Tudo isso é para dizer que nossas intenções estão corretas e nossa análise feminista é necessária, mas nós temos perdido de vista os aspectos relacionais e temos deixado de compreender os homens de baixa renda e as implicações do estresse econômico para eles, assim como as definições sociais que enfatizam o trabalho sobre todas as funções e identidades deixam mulheres e homens amarrados ao mesmo tempo que perpetuam desigualdades de gênero.

7.3. Estresse Econômico e população masculina: implicações para os homens e para gestores
O que está acontecendo com o emprego dos homens? De acordo com a Organização de Trabalho Internacional, nas economias de renda média, a crise econômica global foi pelo menos tão prejudicial aos homens quanto para as mulheres e possivelmente mais, como visto pelo maior aumento na taxa de desemprego nas economias de renda média para homens comparado às mulheres em 2008 (1.1% para homens versus 0.8% para mulheres)81. Isto levou a um estreitamento da lacuna de gênero na taxa de desemprego em 2008, mas apenas porque a situação dos homens no mercado de trabalho piorou, não porque o emprego e a renda das mulheres melhoraram. Do mesmo modo, de acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho dos E.U.A., mais de 80% de perdas de vagas nos Estados Unidos durante a recente recessão foram entre homens. Mais de 6 milhões de trabalhos foram perdidos nos Estados Unidos e na Europa em setores tradicionalmente dominados por homens (construção e manufatura pesada), e eles continuam a decair mais e mais rápido do que aqueles tradicionalmente dominados por mulheres (empregos do setor público, saúde e educação).
Apesar da crise econômica global e maior perda no total de trabalhos para homens, eles de modo geral ainda têm mais postos de trabalho do que as mulheres. Mas essa verdade geral não nos diz o que está acontecendo com grupos específicos de homens.
Como previamente afirmado, quase universalmente, ter um emprego estável é o caminho para ser reconhecido socialmente como um homem adulto, o que na maior parte do mundo é associado com a formação de família. Contudo, como o mundo registra seu maior contingente de

81 International Labour Organization. (2009). Global Employment Trends for Women Geneva. 2009, p. 2.


131

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

jovens de todos os tempos (movimento conhecimento como “onda jovem”), concomitantemente com uma recessão econômica global, muitos homens jovens (e mulheres jovens) não estão capacitados para adquirir um emprego estável e não encontram lugares no mercado de trabalho. Ou seja, seus caminhos para formar uma vida familiar são bloqueados, reduzidos ou, de outra maneira, desafiados. Numerosos estudos confirmam que os homens jovens enfrentam uma pressão social em algumas comunidades para se conformar a estereótipos de gênero como “ganhadores de pão”, provocando vergonha se eles não podem se adequar a essas expectativas. Se eles tem dificuldade em achar emprego, homens jovens podem optar por prolongar sua educação, quando possível, ou podem migrar.
Todas essas tendências sugerem que a identidade social tradicional para homens – aquela de ser o provedor – não é mais uma certeza (se é que alguma vez já foi). Claramente, muitos homens de baixa renda tem, historicamente, tido problemas em encontrar e manter empregos estáveis. Contudo, a natureza dos mercados de trabalho dinâmicos e o fim de muitas formas de carreira de trabalho numa escala global tem aumentando a desigualdade de renda em algumas parcelas e a falta de emprego para milhões de jovens homens. Porque eles não podem adquirir um emprego estável, eles e suas sociedades não os vêm como homens. Como resultado desse fenômeno, alguns sociólogos tem usados palavras como “youthhood” ou “waithood”, palavras que foram recentemente inventadas para definir esta nova (ou ao menos recentemente observada) tendência de uma juventude prolongada contra a vontade dos proprios jovens.82
As consequências dessas tendências são sentidas de maneiras diversas, variando da exacerbação de conflitos, agitações sócio-políticas (para alguns homens jovens em certos contextos) e outras formas de violência. Esses assuntos precisam ser levados em consideração em qualquer compreensão da participação dos homens em suas famílias. Novamente, ao citar esses dados, precisamos afirmar que essas tendências também deixam mulheres jovens – particularmente mulheres jovens de baixa renda – vulneráveis. Ao citar essas tendências e seus efeitos em homens jovens, particulamente quando eles relacionam-se a formação de famílias, nós não estamos de maneira nenhuma afirmando que as vidas das

82 M. Correia and I. Bannon, eds. The Other Half of Gender: Men’s Issues in Development.
Washington, DC: The World Bank.


132

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

mulheres jovens nos mesmos contextos são de alguma forma empoderadas ou livres de estresse.
Vamos examinar alguns outros exemplos. Resultados recentes da Pesquisa Internacional sobre Homens e Igualdade de Gênero (IMAGES), coordenada pelo Instituto Promundo e o International Center for Research on Women em 7 países (da América Latina, África, Ásia e Europa) encontraram que uma percentagem relativamente alta de homens queixam-se de sentirem-se frequentemente envergonhados ao enfrentar a família, estressados ou deprimidos como resultado de ter uma renda muito baixa ou estar des ou subempregado. Na Índia, dos 1552 homens entrevistados em pesquisas no lar em duas cidades, 30% afirmaram que se sentiam envergonhados de enfrentar a família porque estavam sem trabalho. Estes homens que se queixaram de estresse ou vergonha como resultado do desemprego tinham 50% mais probabilidade de cometer violência contra a parceira, duas vezes mais de cometer violência sexual contra a parceira. Além de usarem menos a camisinha (arriscando a si próprios e suas parceiras de contrair HIV) e terem taxas mais elevadas de abuso de álcool.
A tabela 1 mostra alguns dos países em termos da associação entre estresse econômico dos homens e uso de violência contra as parceiras. Em todos os países que analisados, os homens que se queixam de experienciar estresse econômico tem maiores taxas de violência contra as parceiras. Convém ressaltar que muitos, provavelmente a maioria dos homens desempregados não comete violência contra suas parceiras, e violência contra as mulheres tem várias outras causas, mas esse achado ilustra um assunto chave. Pobreza nesse caso não é “fator de risco” para o uso de violência contra as mulheres por homens. O “fator de risco” é o estresse econômico, especificante homens que não sentem que tem renda suficiente e emprego para atingir os mandatos sociais da masculinidade para serem reconhecidos socialmente e pessoalmente como “homens.”.

FIGURA 1: Stress econômico e Violencia contra a Parceira Intima



133

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

Com experiências de stress econômico



Sem experiências de stress econômico






Fonte: International Center for Research on Women e Promundo, International Men and Gender Equality Survey (IMAGES). Resultados preliminares. Violencia contra a Parceira Intima (inclui violência sexual ou fisica contra a parceira).

7.4. Avançando: Implicações para Ação Coletiva
Então o que fazemos a respeito desses assuntos? Quais são as implicações para as políticas de gênero, e para envolver homens, mulheres e a sociedade civil nesses assuntos? Primeiro e mais importante é a conclusão de que nós não podemos, nem devemos, separar justiça de gênero de justiça social. Ao mesmo tempo em que nós continuamos a promover a licença paternidade, uniões homossexuais, acesso completo a direitos reprodutivos e sexuais e trabalhamos pelo fim da violência contra as mulheres (e entre os homens e contra as crianças), devemos manter o princípio da justiça social e da marginalização social em destaque.
Segundo, precisamos trabalhar para conectar a produção e a reprodução. Desigualdades de gênero e hierarquias de poder são criadas e reforçadas pela divisão dessas duas esferas. Nossos exemplos de alcançar alguma coisa próxima à equidade de gênero – Noruega é o exemplo óbvio, discutido abaixo, mas há outros – mostram uma participação equitativa (ou quase equitativa pelo menos) de homens e mulheres no mercado de trabalho simultanealmente com uma participação equitativa de homens e mulheres no trabalho doméstico e no cuidado.



134

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

De fato, uma distribuição mais equitativa da carga de cuidados (e trabalho doméstico em geral) entre mulheres e homens é essencial para auxiliar no empoderamento econômico de mulheres e são um meio dos homens exercerem mais de uma função social. Claramente, os efeitos do estresse econômico não são apagados quando os homens vêm para casa cuidar das crianças, mas reconhecer que este cuidado é também trabalho, é também valoroso e importante para as sociedades e indivíduos é o reconhecimento chave para os homens e um passo grande rumo a equidade de gênero.
Concluirei com dois exemplos de como a mudança pode ser possível, ou ao menos foi possível em alguns contextos. Primeiro, olhemos para Noruega. Desde 1986, a Noruega promulgou e revisou uma série de políticas de equidade de gênero e fez a equidade de gênero uma parte central de suas políticas de bem estar social. Essas políticas incluíram subsídio ao cuidado infantil, licença familiar que beneficia ambos, mães e pais, promoção da paridade de pagamento para mulheres, e a promoção e o avanço de mulheres na política, negócios e na vida acadêmica.
Um indicador de sucesso é que a Noruega foi o primeiro lugar no mundo em equidade de gênero usando o Índex Internacional de Desigualdade de Gênero (International Gender Gap Index) desenvolvido no Fórum Econômico Mundial. Em 1986 e em 2006, o governo executou a Pesquisa de Igualdade de Gênero e Qualidade de Vida e avaliou o impacto de 20 anos de políticas de equidade de gênero. Os resultados mostraram que 70% das mulheres e 80% dos homens estão satisfeitos com a atual divisão de ocupações domésticas e, no geral, mulheres e homens que relataram mais equidade no tempo utilizado e maior satisfação com seus parceiros (inclusive no ambito da vida sexual). Para pais com crianças nascidas desde 2000, homens noruegueses utilizam uma média de 6.1 semanas de licença paternidade (paga), um aumento grande nos ultimos 20 anos.83
No geral, o aumento da equidade de gênero na Noruega resultou em diminuição das taxas de violência dos homens contra as humenos e dos homens (e mulheres) contra as crianças e, mais ainda, o papel do pai como executor da punição/violência física está desaparecendo dos lares noruegueses.
Mulheres e homens na Noruega percebem o aumento na equidade de gênero como tendo trazido mais felicidade e qualidade de vida. Ambos


83 Øystein Gullvåg Holter, Helge Svare and Cathrine Egeland (2009). Gender Equality and Quality of Life: A Norwegian Perspective. Oslo: The Nordic Gender Institute (NIKK).



135

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

apóiam maior equidade de gênero (inclusive licença aumentada para os pais), e veem isto como um bem público para todos. Esta experiência vem junto com um leque amplo de políticas de bem estar social e compromisso político com equidade social.
Portanto, se estes níveis de equidade de gênero podem ser atingidas, se atingidos outros tipos de equidade social, especialmente equidade de renda, junto com outras reformas de amplo espectro na participação democrática, é uma questão demorada e primordial enquanto outros países continuam buscar a aprender com a experiência norueguesa.
Para que não pensemos que apenas as economias mais ricas podem atingir algo proximo a equidade de gênero, há também exemplos de economias agrícolas. Os Pigmeus Aka do Congo (Central Africano e do norte do Congo República), nos estudos de uso do tempo, mostram uma maior participação do tempo como pais, assim com as mães fazem. Antropólogos concluíram que esta equidade maior no cuidado das crianças emergiu dos tipos de coleta de comida e caça que os Aka tradicionalmente fazem, que é também igualmente dividio entre mulheres e homens. Isto é, homens podem e fazem a mesma coisa que as mulheres e vice-versa.
Recentemente, eu e alguns colegas temos entrevistado os participantes de programas de geração de renda no Burundi e em Ruanda, onde algumas ONG que apoiaram microfinanças focadas em mulheres estão buscando formas para envolver homens de maneira que empodere as mulheres e promovam mais equidade na carga de cuidados. Um homem entrevistado no Burundi afirmou:
Antes os homens na minha comunidades pensavam que eu era controlado pela minha esposa, porque eu a deixava sair sozinha e ter sua liberdade quando ela estava indo para o grupo de poupança e empréstimo [o grupo organizado para promover a geração de renda]. Mas então eu me juntei também com o grupo. Eu vi que ela era capaz de comprar vegetais e vendê-los no mercado e o dinheiro era bom para nós dois. Então, eu me tornei um membro [do grupo de poupança e empréstimo] e nós dois tivemos acesso a crédito, juntamos nosso dinheiro e compramos animais. Agora, nós investimos juntos e fazemos mais dinheiro. Eu nunca teria vestido as roupas que eu tenho agora. Eu tenho confiança em mim mesmo. Eu não me sinto mais tão constrangido por causa da



136

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

minha limitacao fisica [ele tem problemas de andar, em uma das pernas]. E minha esposa parece estar mais bonita do que costumava para mim e nossas crianças estão mais felizes. Eu não uso mais violência do jeito que eu costumava usar. 84
Podemos questionar se essas mudanças são duradouras e verdades. O que eu quero reforçaar é que no nível doméstico – e no nível político – envolver homens e mulheres em cooperação parece o único caminho a seguir rumo a equidade de gênero e a justiça social. Homens precisam reconhecer o desempoderamento econômico e social das mulheres, e as mulheres e as líderes dos movimentos feministas também precisam reconhecer as vulnerabilidades de gênero dos homens e a natureza de gênero na vida dos homens. Chegar a esta cooperação não é, nem será fácil.
Se chegar a este nível de cooperação é difícil, oportunidades numerosas existem para alcançar mudanças reais e duradouras nas experiências de homens e mulheres e nas relações entre eles. Melhor do que se agarrar à visão “hidráulica” desgastada das relações de gênero que opõe as necessidades dos homens contra as necessidades das mulheres, é tempo de forjar alianças entre as mulheres ativistas e os poucos (mas crescentes) grupos da sociedade civil trabalhando com homens pela equidade de gênero, como o movimento LGBT e outros movimentos pela justiça social. Embora nem sempre seja fácil de reconhecer, todos esses movimentos tem um interesse comum em acabar com as desigualdades e rigidez de gênero. De fato, a equidade de gênero deve ser tomada como uma causa que não é só de mulheres, mas é igualmente sobre o esforço de encontrar formas de “reduzir as pressões sobre homens e garotos a se conformar a rígidas e arriscadas formas das masculinidades”85. Além disso, nós temos ainda que explorar plenamente o interesse dos homens por mudanças próprias, especialmente nas experiências positivas que os homens geralmente relatam quando tornam-se mais envolvidos no oferecimento de cuidado e nas relações familiares. Essas afirmações, é claro, são mais fáceis de falar do que de realizar, mas eles são o caminho a seguir para envolver homens em ações coletivas – sempre em ações aliadas às mulheres.


84 Barker, Gary and Schulte, Jennifer. 2010. Engaging Men as Partners in Women’s Economic Empowerment: Strategies and Recommendations for CARE Country Offices. Unpublished report.
85 Ruxton, Sandy. 2009. Man Made: Men, Masculinities and Equality in Public Policy. London: Coalition on Men and Boys. Available at www.comab.org.uk. Accessed on January 17, 2010.



137

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)


138

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

8.
PRÁTICAS DE/NA INTIMIDADE: O QUE QUEREMOS DIZER COM ISSO?


Maria Juracy Filgueiras Toneli
Núcleo Margens/ UFSC


Introdução
Devo confessar no início dessas reflexões que, no período de organização desse seminário, colaborei para a elaboração de seu tema central e de seus eixos temáticos. Quando convidada para a mesa que tem como foco as Práticas de Intimidade e Subjetividades, no entanto, deparei-me com certa inquietação. Passei um tempo ruminando algumas idéias e penso que o verbo é esse mesmo: ruminar, no que remete a algo que mastigamos por um bom tempo com vagareza em engolir e digerir. Entre outras questões, perguntava-me o que queremos dizer quando dizemos práticas de intimidade ou na intimidade. Penso que há algumas diferenças importantes aqui, assim como se torna fundamental, no meu entender, retomarmos alguns elementos históricos e políticos relacionados a essa pergunta para podermos avançar na discussão.
Proponho, então, a recuperação de alguns desses elementos que me ocorrem nesse momento, como a inflexão do domínio público em prol do domínio da chamada intimidade tal como Sennett (1999) já assinalou em sua obra; a democratização da vida privada ou a intimidade como democracia argumentada por Giddens (1993) como uma das transformações da intimidade na época contemporânea; o narcisismo e o “mínimo eu” discutidos por Lash (1983, 1986) e o individualismo


139

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

moderno proposto por Dumont (1985). Essas possibilidades reflexivas incluem a discussão efetuada por Foucault (1999) a respeito das disciplinas e dos biopoderes incidindo sobre a sexualidade. Ou seja, trata-se de historicizar a idéia de “intimidade”.
O que é “intimidade” afinal? Intimidade, do latim intimus, significa “o que está mais no interior”. A intimidade como um âmbito da vida e/ou do indivíduo é uma idéia produzida na modernidade que, no entanto, aparece como um valor universal, inquestionável e inerente à vida humana. Voltemos um pouco na história.
Com a criação dos Estados-Nação uma nova forma política de poder vai se configurando e se articulando: simultaneamente, tecnologias totalizadoras – globalizadoras e quantitativas concernentes à população, e tecnologias individualizantes analíticas concernentes ao indivíduo (Foucault, 1995a). À medida que a multidão vai se tornando mais densa e amorfa, tornaram-se necessários procedimentos mais refinados de identificação e controle social (Corbin, 1987), de obtenção de mais informações sobre os indivíduos e sua intimidade. Esses saberes articulam-se ao bio-poder de sorte a integrar ainda uma tecnologia de poder mais antiga: o poder pastoral, que não pode ser exercido “[…] sem o conhecimento da mente das pessoas, sem explorar suas almas, sem fazer-lhes revelar os segredos mais íntimos” e que está ligado “à produção da verdade – verdade do próprio indivíduo” (Foucault, 1995b, p. 237). Para governar a sociedade foi necessário, portanto, obter informações sobre os indivíduos e voltar-se para sua intimidade (biopoder/biopolítica).
É nesse contexto que a idéia de intimidade e sua configuração geo-política surgem remetendo ao indivíduo algo que lhe seria próprio. A separação entre o domínio público da política e da produção do domínio privado da reprodução destina a este último uma suposta autonomia quanto aos diversos “modos de ser”, em especial as relações de natureza sexual. Há um movimento gradual de interiorização da família com incentivo à vida privada e à intimidade doméstica. Propicia-se a criação de um espaço para os segredos familiares e privatiza-se a vida. Nesse processo, até mesmo os espaços interiores da casa se especializam de forma a resguardar, também, a privacidade do casal. Os ideais de monogamia e de indissolubilidade do casamento tentam garantir a duração de uma vida fecunda e a transmissão da herança do patrimônio do indivíduo, assim definido a partir da idéia do sujeito universal masculino depositário do ideário liberal moderno. Ao mesmo tempo, é atribuída aos parceiros a obrigação de preencher necessidades afetivas e



140

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

sexuais que, anteriormente, não eram concentradas somente na relação conjugal. A intimidade conjugal passa a se apresentar como uma fonte preciosa de satisfação individual e o casamento recua do domínio público para o domínio privado, tornando-se cada vez mais um assunto pessoal e não da sociedade.
A intimidade se constitui, então, como um campo ligado à privacidade em oposição ao espaço público por meio de diversas práticas e saberes na modernidade. Campo de ações que incluem o discurso de si, a história da vida pessoal, o compartilhar emoções, sentimentos e pensamentos, a experiência cotidiana, a vida amorosa e as relações de amizade, tudo aquilo que pode ser colocado sob o domínio do privado e do familiar e que é compartilhado apenas por um grupo de pessoas conhecidas.
Supostamente inacessíveis aos “olhares alheios”, essas relações, no entanto, tornam-se alvo de suspeita e de controle. A medicina, a psiquiatria e a pedagogia irão constituir-se com base nessa necessidade de controle, articulando duas modalidades de produção de verdade: a velha injunção da confissão (correlata ao poder pastoral já mencionado) e os métodos da escuta clínica. Neste contexto, os prazeres individuais e tudo o que rodeia o ato sexual constituem o objeto privilegiado da confissão. O sexo e a diversidade das suas práticas irão ser cuidadosamente catalogados e classificados pela psiquiatria, de sorte a configurar um discurso de verdade sobre o sujeito. As práticas normalizadoras do biopoder definem o que é normal para diferenciar e manipular o que, a partir dessa definição, foge à normalidade. Podemos dizer então que “ao tentarmos fundamentar nossas normas na religião, na lei e na ciência, fomos levados a buscar a verdade de nossos desejos e, assim, nos tornamos aprisionados a nós mesmos e governados pelo poder normalizador da lei e da medicina” (Rabinow & Dreyfus, 1995, p. 283).
A socialização das condutas procriadoras constitui uma das quatro grandes unidades estratégicas por meio das quais poder e saber se fundem em mecanismos específicos em torno da sexualidade (ou do dispositivo da sexualidade). Ao casal foram delegadas responsabilidades médicas e sociais de maneira a garantir a saúde da família e, por conseguinte, de todo o corpo social. A regulação da procriação, a proteção com relação às influências patogênicas de uma sexualidade descuidada conjugavam-se à psiquiatrização do prazer perverso, assim como à histericização dos corpos das mulheres e à pedagogização do sexo das crianças (Foucault, 1988). A eugenia pode ser entendida nesta perspectiva, incluindo aqui as estratégicas de higienização do corpo social.



141




Compartir con tus amigos:
1   2   3   4   5   6


La base de datos está protegida por derechos de autor ©psicolog.org 2019
enviar mensaje

    Página principal
Universidad nacional
Curriculum vitae
derechos humanos
ciencias sociales
salud mental
buenos aires
datos personales
Datos personales
psicoan lisis
distrito federal
Psicoan lisis
plata facultad
Proyecto educativo
psicol gicos
Corte interamericana
violencia familiar
psicol gicas
letras departamento
caracter sticas
consejo directivo
vitae datos
recursos humanos
general universitario
Programa nacional
diagn stico
educativo institucional
Datos generales
Escuela superior
trabajo social
Diagn stico
poblaciones vulnerables
datos generales
Pontificia universidad
nacional contra
Corte suprema
Universidad autonoma
salvador facultad
culum vitae
Caracter sticas
Amparo directo
Instituto superior
curriculum vitae
Reglamento interno
polit cnica
ciencias humanas
guayaquil facultad
desarrollo humano
desarrollo integral
redes sociales
personales nombre
aires facultad