Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas



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4.
HOMENS, DOMESTICIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS NA SAÚDE REPRODUTIVA


Russel Parry Scott
Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade | FAGES/UFPE
O homem trata sua relação com a casa de maneira diferente da mulher. A intenção fundamental destas páginas é alertar sobre a relevância dessa identificação do homem de acordo com sua participação em grupos domésticos para elaborar políticas públicas na área de saúde reprodutiva ou em qualquer outra área.
O que fica evidente é que os homens são plurais, e a maneira de fazer com que se atinja a meta de promoção de direitos reprodutivos masculinos e femininos de modo a respeitar a criação de relações de gênero mais igualitárias é abordar diferentemente os homens, não somente de acordo com a diversidade de suas características socioeconômicas individuais, mas também de acordo com sua idade e condição residencial.
Os homens são diferentes de acordo com quem vivem. A partir dos arranjos domiciliares, é possível pensar algumas implicações para a elaboração de políticas públicas que atinjam os homens. Aliás, algumas políticas públicas já são elaboradas considerando essa variável, embora isso seja feito mais freqüentemente de maneira implícita, e não explícita. Um conhecido estudo sobre mulheres40 reproduz um dito popular: “antes só que mal acompanhada”. É um ditado marcadamente feminino. Os homens diriam isso? Até hoje, não ouvi nenhum deles pronunciar esse ditado em referência à situação dos homens.

40 BARROSO, Carmen. “Sozinhas ou mal acompanhadas – a situação das mulheres chefes de família,” Anais do Primeiro Encontro Nacional da ABEP, Campos do Jordão, ABEP, 1978.



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Observando os arranjos em que se metem, às vezes até parece que o inverso seria verdade para os homens: “antes mal acompanhados que sós”. Neste artigo vou usar essa observação sobre arranjos domiciliares masculinos para comentar algumas perspectivas de reflexão sobre políticas públicas para homens, dando ênfase a questões relacionadas com sexualidade e reprodução.

4.1. Onde estão os homens nos arranjos domiciliares?
Basicamente, o uso do conceito de domicílio encontrado nos censos, “uma estrutura independente, com um ou mais cômodos, com entrada privativa”, serve como ponto de partida para nossas reflexões. Nos domicílios particulares, o IBGE, em seu manual do recenseador, enfatiza que a condição de “separação” e “independência” (ver anexo II de ABEP 198441) é a base das análises. É instrutivo incluir, além dos domicílios particulares, os domicílios coletivos (quartéis, mosteiros, conventos, hospícios, hotéis, pensões, penitenciárias, colégios e residências universitárias, alojamentos de trabalhadores, asilos, etc.) para entender a condição residencial masculina. Também se argumenta aqui que há uma diferença qualitativa na vivência em domicílio entre os chefes, de um lado, e os que moram em casas chefiadas por outras pessoas, de outro.
Assim, podemos lançar uma primeira pergunta: onde se situam os homens residencialmente? A Tabela 1 mostra os dados do censo de 199142, apresentando os números absolutos de homens por arranjo domiciliar, a proporção de homens em relação a mulheres em cada arranjo e a proporção do total dos homens no arranjo.


41 ABEP, Censos, Consensos e Contra-sensos. Ouro Preto, ABEP, 1984.
42 Este trabalho, inédito, foi preparado para o Workshop Homens e políticas públicas: reflexões e práticas sociais. Recife, 10 e 11 de agosto 2000, organizado pela MacArthur Foundation e o Instituto Papai. As datas dos dados refletem a época em que foi escrito, e, mesmo que efetuasse a atualização para o uso dos dados de 2000 daria oportunidade para ver algumas mudanças, não afeta a substância do argumento. Por isso optou-se por preservar os dados originais.



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Tabela 1: Condição residencial masculina no Brasil – 1991








Total (mil

Homens por

% do total de




Arranjo domiciliar

homens no




homens)

mulher no arranjo










arranjo



















Domicílio unipessoal

1.216

0,99

1,7




Chefes

de

27.223

5,37

37,6




domicílios*
















Outros

em

43.319

0,64

59,8




domicílios
















Domicílios coletivos

417

1,9

0,6




Total




72.485

--

100**





FONTE: Censo Demográfico, 1991, Dados Gerais (publicado 1994).
* Exclui os domicílios unipessoais.
**O 0,3 ponto que falta para completar 100% refere-se à categoria "residências particulares improvisadas", na qual não foi possível distinguir entre unipessoais, chefes de domicílios de 2 ou mais componentes e homens que moravam na casa dos outros.
A tabela permite algumas observações importantes que precedem a elaboração da discussão mais detalhada feita ao longo deste trabalho. Primeiro, nota-se que há um equilíbrio relativo entre homens e mulheres nos domicílios unipessoais, uma categoria residencial que está crescendo no Brasil. Segundo, nos domicílios coletivos, embora não representem nem 1,0% do total de domicílios ou do total de homens, a predominância masculina é bastante marcada, há aproximadamente dois homens para cada mulher nesse tipo de arranjo. Quando se trata de domicílios que se organizam mais como “famílias” (em relação a casais conviventes), a diferença de gênero é marcada pela posição ocupada por mulheres e por homens: há clara predominância masculina na condição de chefia. Por outro lado, para os outros residentes, não-chefes, a predominância é feminina. É bom lembrar que essa diferença é criada, sobretudo, a partir da participação de membros adultos no domicílio (principalmente na díade chefe/cônjuge, obrigatoriamente diferenciada no censo43). Entre filhos com 14 anos ou menos não há diferenças significativas quanto à divisão entre homens e mulheres (0,98 homem por mulher).


43 No Brasil inteiro em 1991 apenas 80,640 homens foram declarados como cônjuges em vez de que como chefes – contra os 28.440.447 chefes masculinos, ou seja 0,002%!



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Para preparar um seminário internacional sobre domicílios na década de 80, Wilk e Netting44 elaboraram um quadro de referência que adaptamos45 para examinar comparativamente os domicílios no Brasil, e que voltamos a usar neste texto. Nesse quadro procedeu-se a uma identificação analítica diferenciada de esferas de atividade relacionadas com o grupo doméstico, inclusive produção, reprodução, distribuição e transmissão. Qualquer ato específico de membros de domicílio pode ser examinado com referência às suas implicações para cada uma dessas esferas, para mais do que uma, ou mesmo para todas elas. De acordo com as diferentes condições residenciais masculinas examinadas, os mais relevantes assuntos dentre essas quatro esferas são realçados, mesmo que a ênfase aqui recaia sobre reprodução46, como já foi declarado. Isso ajuda também na discussão sobre as potenciais implicações para as políticas públicas.

4.2. Políticas públicas para homens?
As políticas públicas tendem a ser dirigidas para os homens, mas isso é um segredo bem guardado em favor da manutenção da imagem de que o Estado está promovendo a correção de desigualdades através de suas políticas concretas a favor de setores femininos da população. Assim, a tão badalada visibilidade, sobre a qual grande parte das reivindicações feministas enfoca seus esforços, é exatamente o que não interessa aos homens –ao tornar-se mais visível o modo como se distribuem os benefícios dessas políticas, será mais difícil mantê-los em face das

44 WILK, Richard and Robert McC NETTING, “Households: Changing Forms and Function” in Netting, Wilk e Arnould, Households: Comparative and Historical Studies of the Domestic Group,

Berkeley, U. California, 1984.
45 SCOTT, R. Parry, “Comparáveis ou Incomparáveis: famílias de trabalhadores rurais, pobres urbanos e classe média (um roteiro de pesquisa sobre o uso social do trabalho),” Seminário Nordeste, o que há de novo. Natal, UFRN, 1988.
46 Entre a literatura crescente sobre este assunto, destacam-se ARILHA, RIDENTI e MEDRADO (orgs.), Homens e Masculinidades (outras palavras), São Paulo, Editora 34, 1999; VALDÉS e OLAVARRÍA (eds.), Masculinidad/es Poder y crisis, Santiago, ISIS/FLACSO, 1997; BILAC e BALTAR DA ROCHA (eds.) Saúde Reprodutiva na América Latina e no Caribe: Temas e Problemas. São Paulo, PROLAP, ABEP, NEPO/UNICAMP, Editora 34, 1998; GIFFIN, Homens, heterosexualidades e reprodução no Brasil. Mimeo, Dept. Anthropology, U.C. Berkeley, Ford/MacArthur, outubro 1997; LEAL, “Suicídio, honra e masculinidade na cultura gaúcha,” IN Leal Antropologia do Corpo e da Saúde II, Porto Alegre, Cadernos de Antropologia, no. 6, 1992; as coletâneas sobre Direitos Tardios (1997) e Alternativas Escassas (1994) do PRODIR, editados por Albertina COSTA e Tina AMADO (Editora 34, São Paulo, Fundação Carlos Chagas) e BARBOSA e PARKER, Sexualidades pela Avesso, Rio de Janeiro IMS/UERJ; São Paulo, Editora 34, 1999 e o resumo feito por MEDRADO do seminário Homens e Reprodução, São Paulo, 1999.



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reivindicações das menos beneficiadas.47 Então, a idéia de políticas públicas para os homens não é uma idéia que parta deles. Para os favorecidos numa sociedade androcêntrica, certo silêncio pode até ser vantajoso.
Mesmo diante da ressalva feita aqui, não há como negar que em muitas esferas os homens são excluídos e teriam o que ganhar caso houvesse modificações significativas nesses setores. Isso se dá em condições diferentes: às vezes a discriminação societária recai sobre porções marginalizadas da população masculina, diferenciada segundo a razão de sua marginalização; às vezes a reivindicação por uma política específica para a população masculina se envolve na procura da criação de relações de gênero mais igualitárias, associando-se ao objetivo amplo de uma sociedade mais justa, onde a consciência da possibilidade de relações mais plenas entre todos os membros da sociedade passa, necessariamente, pela redução da distância entre homens e mulheres.
As políticas públicas para homens são examinadas aqui na medida em que se apresentam como relevantes para homens que têm condições residenciais diferenciadas. Essa ênfase em condições residenciais é um artifício metodológico que tem duas finalidades, só aparentemente contraditórias: mostra que a condição residencial é importante para os homens (isto é pouco apreciado na literatura) e ainda que é mais pelas esferas de atividade que pela própria condição residencial que as políticas públicas se delineiam. Assim, ao estudar cada arranjo domiciliar e a condição residencial masculina nele, o objetivo é identificar esferas em que algumas ações podem ser ponderadas. Este trabalho tem a intenção de ressaltar alguns pontos que se apresentam para reflexão, e não a de examinar todas as suas implicações, esfera por esfera e condição por condição, o que seria uma tarefa homérica (ou, devo dizer, penelopeana?).
É importante fazer mais um esclarecimento: diante do fato de que a grande maioria da população brasileira é formada por famílias com renda muito limitada, só excepcionalmente vão ser feitos comentários sobre outras camadas sociais que não as que sofrem dessa limitação.


47 Como analogia a esta situação, é interessante ver o argumento de Yves CHALOULT (Estado, Acumulação e Colonialismo Interno, Petrópolis, Vozes, 1978) quando ele denuncia a condição de colonialismo interno no Brasil, demonstrando que as políticas de destinar recursos para correção de desigualdades anunciadas para favorecer o Nordeste de fato são contrabalançadas, e muito, pelas políticas que destinam recursos sem especificar as regiões para onde se dirigem.



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4.3. Os homens que moram sós
Em meados dos anos 80 projetava-se um estudo cuja realização não cheguei a acompanhar. O título do estudo era “Moro só, e daí?”. Isso reflete certa indignação contra a reputação de quem não mora com ninguém, de quem não tem um círculo recíproco doméstico no qual partilhar o cotidiano. Essa condição está crescendo para homens e para mulheres. É o arranjo doméstico cujo índice de crescimento é o maior entre todos os arranjos domiciliares - aproximadamente 6% deles48. Tratar isso como anomização, ou como evidência de fragmentação ou de exclusão social diante do processo de globalização ou de pós-modernidade, ou de intensificação da exploração do trabalho, ou de uma declaração de direitos individuais, todas são formas de interpretação diferentes, possibilidades analíticas diversas, mas isso ultrapassa a finalidade deste trabalho.
Concretamente, os homens foram, só recentemente, ultrapassados pelas mulheres nesse arranjo residencial (na década de 80), mas eles ainda têm uma grande particularidade que os diferencia das mulheres. Enquanto para as mulheres esse crescimento está muito forte entre as mais idosas (os números absolutos – e não apenas os relativos – são progressivamente crescentes por faixa etária até 69 anos de idade, quando os números absolutos caem por mortalidade, mas os relativos continuam crescendo), para os homens há um equilíbrio muito maior entre as faixas etárias de quem mora só, inclusive jovens, adultos e idosos.
Quase a metade (49,0%) dos homens que moram sós se situam na faixa etária de 20 a 45 anos (11,5% de 25 a 29 anos). Portanto, são homens em plena idade de atividade produtiva. Nessa faixa etária, esse arranjo é uma opção recorrente para os homens, situa-se em torno do dobro do número de domicílios unipessoais femininos. Em números absolutos, as mulheres nesses arranjos só ultrapassam os homens (e então definitivamente) na faixa acima de 55 anos.
Um primeiro ponto que se deve enfatizar é quanto o morar só se associa à decisão de efetivar uma busca de trabalho, independente de laços familiares imediatos. Quando o homem jovem e o adulto moram sós, frequentemente o objetivo é manter-se perto do local de trabalho, seja este uma fazenda, uma fábrica, uma área em construção ou outro qualquer. Não é raro encontrar “carreiras de quartos” (de empresas ou


48 GOLDANI, Ana Maria, “As famílias no Brasil Contemporâneo e o mito da desestruturação,” Cadernos PAGU, no. 1, Campinas, São Paulo.1993.



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de proprietários particulares) ocupados por homens que moram sós e que impressionam pela aparente inabitabilidade, superada apenas pela própria capacidade dos homens de aguentar as condições oferecidas. Assim, trata-se de homens que são levados a realizar uma auto-exploração, muitas vezes em nome de poder contribuir para a manutenção ou formação de um grupo doméstico (distante no presente como migrante; ou almejado, no futuro, sobretudo como chefe). Malgrado esse caminho, outros desses homens sustentam algum costume de consumo que impossibilita a acumulação diante da remuneração limitada auferida com o trabalho. Sós ou com família, é significativo o fato de 58,2% das pessoas que habitam os domicílios chamados pelo censo de "improvisados" serem homens. A meu ver, isso já introduz uma questão que precisa ser contemplada nas políticas públicas na esfera da relação entre trabalho e qualidade de vida: quais são as condições residenciais toleradas ou mesmo promovidas pelos empregadores para que tenham maior disponibilidade de trabalho de homens, e como essas condições são reguladas? Como evitar altos índices de consumo de álcool ou drogas nessa situação?
O “e daí?” do projeto citado acima se referia também a outra questão – a de sexualidade e reprodução. Os homens que moram sós não têm parceiras sexuais co-residentes. Assim, em sua maioria, são alvos de especulação sobre as preferências sexuais numa sociedade predominantemente heterossexual, ou são clientes potenciais de relacionamentos sexuais instáveis, e, portanto, estão mais expostos diante de doenças sexualmente transmissíveis. Próximos aos locais de concentração de residências unipessoais masculinas, encontram-se geralmente prostíbulos e trabalhadores sexuais autônomos. É possível tornar esses locais e trabalhadores reprodutores de políticas que possam favorecer a diminuição do nível de doenças sexualmente transmissíveis? Como?
Quando os homens que fazem parte de outros arranjos domiciliares comentam sobre alguma época que passaram morando sozinhos, frequentemente referem-se ao período como atribulado, um teste pelo qual passaram (isso é muito notável entre migrantes). Quanto maiores as dificuldades, maiores as vitórias da batalha para conseguir “alguma coisa”. As adversidades enfrentadas são “feridas” acumuladas que comprovam como foi árdua a luta por se tornar um bom provedor, para si mesmo e, sobretudo, para os componentes de sua família.
Morar só é viver um período de liberdade, autonomia e individualidade: esses valores podem se tornar tão importantes que representam uma



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escolha por essa condição residencial confirmada ao longo da vida. Tal opção merece o devido respeito, mas não parece ser o caminho da maioria. Num estudo sobre os domicílios na Zona da Mata pernambucana49 ficou claro que o homem que mora sozinho na velhice está menos satisfeito e tem menores recursos que as mulheres na mesma condição. Os relatos etnográficos de Levi-Strauss50 e de Collier51 sobre as condições de homens sozinhos em sociedades indígenas são ilustrativos, e não parecem perder aplicabilidade quando transpostos para a sociedade industrial, pós-moderna: quando os visitantes perguntavam por que certos homens na sociedade eram tão maltrapilhos, recebiam a resposta de que eles não tinham companheiras.

4.4. Os homens em domicílios coletivos
A opção de residir em um domicílio coletivo não é uma escolha por vivenciar um período de liberdade, autonomia e individualidade, embora possa representar uma fase “probatória”, de ensaio para residir em outras condições futuramente. Mesmo quando a residência coletiva é motivada pela participação em algum tipo de produção, não são as regras de produção que sempre predominam na convivência domiciliar. A superposição da lógica do grupo sobre a lógica do indivíduo é o que marca essa experiência. O próprio censo indica que esses domicílios são restritos "à subordinação de ordem administrativa e ao cumprimento de normas de convivência"52 (ABEP 1984, e os Censos).
Voltando aos estudos sobre sociedades indígenas, há grupos nos quais é justamente na passagem da infância para a vida adulta que os homens são segregados residencialmente para inculcar os valores de masculinidade através de provas de resistência, força, coragem e até de humilhação e obediência. Em muitos casos, no Brasil em geral, os domicílios coletivos masculinos costumam tomar essas feições. Tais domicílios coletivos se mantêm como opção residencial de uma pequena, mas bem diferenciada, proporção do total da população. É uma escolha de uma população ligeiramente mais jovem (65% têm menos de 40 anos) do que os homens que vivem sós. O quartel é o melhor exemplo desse


49 SCOTT, R. Parry, “Família, Gênero e Saúde na Zona da Mata em Pernambuco,” Anais do X Encontro Nacional da ABEP, Caxambú, ABEP, 1998.


  1. Claude LEVI-STRAUSS, Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70, 1986.




  1. Jane Fisburne COLLIER, Marriage and Inequality in Classless Societies. Stanford, Stanford University, 1988.




  1. Ver ABEP (1984, op.cit.) e as instruções e conceitos apresentados no início dos censos demográficos.



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tipo de arranjo residencial, especialmente devido a sua rígida definição de critérios de idade para ingresso. Os que seguem o caminho religioso são outro exemplo. As mudanças nas condições residenciais coletivas se associam de modo próximo à passagem de ciclos promocionais dentro das ordens hierárquicas das instituicões das quais os homens participam. As condições involuntárias de residência em hospitais e prisões, mesmo que sejam chamados de domicílios curativos e correcionais respectivamente, são as que menos se dirigem à preparação para outra condição residencial. Nos domicílios coletivos, é a obediência às regras da instituição que é enfatizada, como bem frisam os autores que estudam “instituições totais”. A república (pode ser masculina ou feminina, ou, mais raramente, mista) é o lugar onde há mais flexibilidade, provavelmente, quanto à adesão às regras do grupo, já que as pessoas trocam de unidades desse tipo de arranjo com facilidade (mas o domicílio só começa a ser identificado como "coletivo" ao abrigar mais de cinco membros não-aparentados).
As regras de participação em algum tipo de produção ou estudo normalmente são bem delineadas como requisitos para participar da residência coletiva, e a distribuição interna frequentemente obedece a padrões bastante rígidos. Seguir regras particulares de reprodução social faz parte do que unifica quem optou por, ou foi levado a, residir coletivamente. Mas, justamente como na condição de quem mora só, a sexualidade e a reprodução biológica costumam ser pontos nevrálgicos do controle social e do comportamento nesses arranjos, como já mostraram muitos estudos. Não é de estranhar, quando se leia a lista de grupos prioritários para o AIDS II no Brasil, que boa parte da então "nova" ênfase tenha recaído justamente sobre aquelas pessoas cujas profissões costumam exigir arranjos domiciliares coletivos53. É a própria “objetividade” da coletividade que oferece condições para trabalhos interessantes com homens que residem assim. Campanhas de doação de sangue contam com a vontade de dotar recrutas com a característica de “obediência” e “vontade de servir” para aumentar a disponibilidade de plasma para os que precisam. A facilidade de trabalhar com administrações centralizadas de instituições que possuem residências coletivas faz com que seja possível achar formas de cooperação que possam se espalhar entre todos os residentes. Há casos em que a identidade do grupo dificulta esse trabalho (como, por exemplo, campanhas contra AIDS em grupos religiosos celibatários, ou medidas


53 Outra ênfase está nos que vivem como desagregados de casas ou em condições marginalizadas.



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punitivas em vez de educacionais em prisões). Mas, em geral, as campanhas e as políticas dirigidas a esses locais, que inclusive aproveitam os aspectos lúdicos e didáticos que funcionam bem em grupos, podem suscitar alguns resultados positivos para esses homens.
4.5. Homens chefes de domicílios
A maioria de homens adultos (especialmente acima de 25 anos) se identifica como chefe de domicílio. De todos os homens nessa faixa etária, sempre mais da metade são "chefes de família". Abaixo de 25 anos, até os 20 anos de idade, predomina a categoria de "filho", mas ainda quase uma terça parte dos homens se identifica como chefe. Assim, mesmo que proporcionalmente venha ocorrendo crescimento no número de famílias chefiadas por mulheres, isso não tem redundado em nenhum questionamento efetivo sobre a predominância de chefia masculina (seja qual for a maneira pela qual se pergunta sobre quem é o chefe)54. Ambas as famílias, nucleares e extensas, são chefiadas por homens, e não é o caso aqui tentar refinar mais o argumento para averiguar os diferentes tipos de família que os homens de domicílios particulares chefiam.
Como já foi sintetizado por muitos autores55, o homem chefe de domicílio costuma se identificar com o papel de provedor, e costuma identificar o seu papel em relação à noção de família. Subordinados a ele na família são a esposa, os filhos e os outros dependentes. Sob sua chefia, a família é uma instituição hierárquica. O homem representa sua casa como “sob controle” e espera que seja reconhecida sua predominância em todas as esferas56. É essa característica discursiva que enfatizo, entre os muitos temas possíveis, neste item, para ajudar a

54 Numa pesquisa realizada na Zona da Mata (SCOTT, R. Parry, PROMATA - Avaliação Social e de beneficiários, relatório para Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco, Recife, 1997; e 1998 op. cit.) apresentamos três opções para a resposta à pergunta sobre chefia: o homem, a mulher ou ambos. O resultado foi uma diminuição no número de casas chefiadas por homens, e uma quase equiparação entre as chefiadas por mulheres e por ambos. O controle sobre o sexo do entrevistado, responsável pela casa, mostrou que tanto homens quanto mulheres em proporções iguais informavam chefia de “ambos”, que tomo como indicação de uma certa abertura da compreensão de divisão de tarefas de uma forma igualitária.
55 Ver especialmente, SARTI, Cynthia Andersen. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas, Autores Associados/FAPESP, 1996; GOLDANI, Ana Maria (1993: op.cit) e Scott (1988: op. cit.)
56 SCOTT, R. Parry, (“O homem na matrifocalidade: gênero, vivência e percepção do domínio doméstico” Cadernos de Pesquisa 73 (38),São Paulo, Fundação Carlos Chagas, maio, 1990) apresenta esse argumento em relação aos ciclos de desenvolvimento de grupos domésticos



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entender algumas questões sobre como lidar com políticas públicas na área de saúde reprodutiva e sexual e as relações de gênero.
A mulher está trabalhando mais e contribuindo mais para prover a família. Ela está tomando as decisões sobre concepção e anticoncepção, está distribuindo os frutos da renda e do trabalho entre todos os membros da família. Quem corre atrás de registrar o filho no nome do pai é a mulher. Mas para o homem, sua família está "sob controle" e não é para ser posta à prova nem aberta à inspeção dos outros! Diferentemente, a realidade discursiva feminina é mostrar sua sabedoria em lidar com o cotidiano familiar, agindo e conversando sobre como e porquê realiza ações que contribuem para produção, reprodução, distribuição e transmissão. Mesmo assim, quando a família foge do controle do homem, está formado um campo potencial para conflito. Enquanto convive com o marido, a mulher reivindica que seja apreciada sua participação de um lado, enquanto do outro ela contribui para a existência de uma espécie de cumplicidade feminina com a aparência de mandonismo masculino. Isso aparece como um dos principais desafios para a elaboração de políticas públicas na área de saúde reprodutiva. Se, no olhar de muitos homens e mulheres, não se pode questionar o controle masculino, como se podem abrir muitas questões para debate e transformação que envolvem o homem, mesmo que essas transformações sejam positivas para homens e mulheres? Conseguir resolver tal problema é encaminhar-se para enfrentar diretamente o dilema de contribuir para a valorização de relações de gênero mais igualitárias. Vejamos dois exemplos adiante.

Violência: é amplamente conhecido que o maior índice de violência denunciada por mulheres é o registrado no interior de seu grupo doméstico. A afirmação do controle masculino passa sobre o corpo feminino, e frequentemente é realizada em estados de embriaguez ou em momentos de maior pressão externa à casa. Está geralmente associado ao medo do homem quanto à implicação de uma maior circulação social de sua mulher que torna o controle dele sobre suas atividades, e, sobretudo, suas relações sexuais, questionável. A necessidade de criar ambientes onde mulheres que denunciam essas práticas possam ter refúgio tem sido bem identificada, e casas de apoio estão começando a ser erguidas para apoiá-las. Mas como é que se pode atacar esse mal em sua raiz, no praticante da violência? Há alguns esforços interessantes, não-punitivos, de envolver líderes comunitários em grupos de discussão (e capacitação) que tomam a forma de "terapia comunitária" (associados



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às pastorais da Igreja Católica). Os profissionais que habilitam os líderes comunitários a dirigir conversas, por sua vez, insistem que cada um discuta suas próprias experiências. O estímulo da participação masculina nessas discussões não é fácil, pois debater abertamente seus problemas é, muitas vezes, uma atividade inusitada e até ameaçadora para o homem, chefe de família. Fica como ponto de reflexão para os promotores desses grupos de discussão como adequar os ambientes criados por eles para a participação desses homens.

Saúde sexual e direitos reprodutivos: o homem é socializado para se ver como uma pessoa forte e autônoma, cuja sexualidade deve ser exercida como prova de masculinidade (dentro e/ou fora do próprio domicílio). A criação dos filhos e o cuidar dos outros são vistos como atividades femininas. Assim, ir ao médico, que resolve "problemas de saúde," é admissão de fraqueza. A presença masculina na procura de saúde é importante para "transpor as barreiras da burocracia" e demonstrar capacidade de lidar com o público para manter a família sob controle57, mas essa participação pode ser tranquilamente dispensada se o problema "não for grave" e os procedimentos no local "bem conhecidos". Há certo conluio entre essa imagem e o setor de saúde quando esse mantém os homens distantes dos serviços, inclusive encarando-os como bagunceiros. A determinação explícita de privilegiar a saúde materno-infantil feminiliza ainda mais os serviços de saúde, afastando o homem. Paralelamente, a medicina demonstra seu poder da mesma forma que o chefe de família: controlando o corpo feminino. As escolhas reprodutivas e as informações sobre saúde sexual são dirigidas a (e, somente às vezes, discutidas com) as mulheres. Sob a orientação médica, ela conhece e usa a pílula e resolve fazer, ou não fazer, laqueadura. Os baixíssimos índices de uso de métodos de anticoncepção que envolvem iniciativas masculinas (camisinhas, vasectomia, coito interrompido) decorrem desse quadro geral. A reversão dessa pequena participação do homem na saúde reprodutiva exige uma visão dele sobre sua contribuição à composição idealizada de sua família – coisa mais comumente associada a uma esfera feminina de atividade. Mas a masculinidade se pauta não somente sobre o controle da própria família, mas sobre a noção de potência, opções sexuais e prazer. Uma das questões envolve o colocar o corpo nas mãos do médico, o que pode ser visto como perder um pouco de seu próprio controle – torna-se pior

57 Discuto isso em Scott, “Gênero, Saúde e Família”, V Encontro de Ciências Sociais do Nordeste. Vol. 1, Recife, Massangana/Fundaj, 1991.



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ainda quando se trata do médico especializado em saúde sexual, que suscita um pavor nos homens quanto à implicação simbólica dos papéis ativo e passivo em relações sexuais suscitado pelo ato do "toque" do exame de próstata. Há necessidade de ampla divulgação sobre as implicações positivas desse exame sobre a saúde sexual masculina e a relação entre saúde, prazer e potência. Já existe alguma indicação de progresso nesse sentido, mas ainda há muito a caminhar. Adicionalmente, esforços de pesquisar os índices de fecundidade masculina podem identificar aqueles homens cujo comportamento é associado a alta natalidade e ajudar a ver o que, socialmente, exacerba a prática de o homem querer ser pai de um grande número de filhos: representa algum controle de imagem ou de recursos importante para ele?
Ao lidar com homens, chefes de família, as políticas públicas precisam saber enquadrar a questão do sentimento, nascido da posição de comando assumido no domicílio, de que na sua família “as coisas estão sob controle” e não há necessidade de intervenção de fora. Assim, as políticas precisam ser revestidas de noções de “ganhos” potenciais no controle que ele pode exercer, tanto na definição de questões de saúde, de acesso a recursos ou de reforço de auto-imagem, quanto na discussão sobre outros ganhos que uma melhora na qualidade da relação entre ele e os outros membros de seu domicílio possa implicar. Com essa idéia caminha outra, de que a melhora do conjunto, ou a diminuição da noção de powerlessness, pode ser mais importante de que a simples noção de controle.
4.6. Outros homens em domicílios particulares
A maior parte da população masculina, considerado o total da população, reside em domicílios particulares chefiados por outras pessoas, conforme os dados apresentados na Tabela 1. Assim, muito da população masculina está numa relação de dependência em sua residência – 89,8% destes homens são “filhos” no seu domicílio, e 34,4% da população masculina total em domicílios particulares tem 14 anos ou menos, então a dependência é uma função de geração, filiação e idade.58 Estes últimos, crianças e jovens, são alcançados sobretudo por programas em ambientes escolares e comunitários. Essa fase é valiosa

58 Em outra ocasião examinei essa condição, diferenciando homens e mulheres. (Ver SCOTT, R. Parry. “Homens e Mulheres sem cônjuges: tendências recentes em Pernambuco,” Anais do VII Encontro nacional de Estudos Populacionais, Belo Horizonte, ABEP, 1990.



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para lançar a discussão sobre participação masculina e feminina em diversas atividades. Ações recreativas e lúdicas mais uma vez têm um potencial pedagógico enorme e podem exercer influência grande sobre como se encaram as relações de gênero, e, consequentemente, sobre a qualidade das relações estabelecidas em seus próprios domicílios, tanto na atualidade, como no futuro.
Rapazes com 15 a 19 anos se tornam pais com bastante frequência. Hoje, a paternidade adolescente é fortemente problematizada por causa do fenômeno demográfico da queda de fecundidade e do envelhecimento da população. Os jovens de hoje ainda são numerosos, nasceram no período em que a queda estava mais acentuada (início dos anos 80). Seus pais normalmente já encerraram sua carreira reprodutiva doméstica. Por isso, tudo o que os jovens fazem é alvo de atenção59 e entre essas atividades a gravidez na adolescência figura como muito importante. Nessa idade sair do jugo da repressão parental representa um ganho em respeitabilidade e responsabilidade diante de um mercado de trabalho que oferece poucas oportunidades de ganhos semelhantes decorrentes de atividades remuneradas. Acompanhar esses jovens, e assegurar que a experiência de ser pai envolvido na organização de um ambiente doméstico para suas famílias em iniciação não seja tratada como experiência de atribulação e quebra de regras de adultos que vigiam as relações sexuais dos seus filhos, é uma das atividades que podem contribuir para o estabelecimento de relações de gênero (e de geração) mais igualitárias. Isso não pode deixar de ser encarado como uma potencial modificação significativa na maneira que esses jovens vão encarar a questão da chefia e da vida doméstica cotidiana. Nessa faixa etária o uso de estratégias de protagonismo juvenil pode fazer muito para subsidiar modificações futuras.
Diante dos que não são filhos, há uma predominância de “outros parentes,” mais presumivelmente irmãos dos responsáveis da casa. Apesar de ser condição mais que dez vezes menos frequente que a de filho, refere-se a pessoas que, potencialmente, formarão uma casa própria no decorrer de sua vida, cumprindo a tendência de neolocalidade.
O que chama ainda mais atenção é quantos “pais (homens)” dos responsáveis pela casa não estão se integrando aos domicílios de seus filhos. Para 5,2 “mães” que se integram como dependentes na casa dos


59 Veja os três volumes da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, Jovens Acontecendo nas Trilhas das Políticas Públicas, Brasília, CNPD, 1998.



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filhos, apenas um “pai” está na mesma situação. Certamente, longevidade diferenciada por gênero não explica uma diferença tão grande. Mais uma vez, estamos diante da reafirmação da prática masculina de ser o chefe de família, que lhe torna difícil se reintegrar como dependente em outro grupo. Ou o homem casa-se de novo, ou mora só.

Um lembrete final
Para evitar a reiteração do que já foi abordado nos diversos itens deste trabalho, encerro lembrando que, no caminho da promoção de relações de gênero mais igualitárias, é importante que se trabalhe a favor de políticas para homens que são “de casa” e não somente “da rua”.


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5.
MEDOS SEXUAIS MASCULINOS E POLÍTICA DE SAÚDE DO HOMEM: LACUNAS E DESAFIOS60


Romeu Gomes; Lúcia Emília Figueiredo de Sousa Rebello e Elaine Ferreira do Nascimento
Instituto Fernandes Figueira/Fundação Oswaldo Cruz

5.1. Os medos sexuais dos homens
Os medos sexuais dos homens (e os das mulheres também) podem estar muito relacionados com questões de gênero. Mas afinal o que é gênero? Essa expressão costuma ser utilizada para se referir a atributos culturais associados a cada um dos sexos. Nesse sentido, o que é feminino e o que é masculino têm significados diferentes nas diversas culturas. As construções culturais de gênero, de um lado, influenciam a formação das identidades das pessoas, afirmando-se assim o ser homem e o ser mulher à medida que ocorrem aproximações e afastamentos dos padrões que mais predominam na cultura onde se situam. Por outro lado, essas construções também influenciam as relações que se estabelecem entre os pares homem-homem, mulher-mulher e homem-mulher Gomes (2008).
Com base nesse conceito, observa-se que os modelos de gênero exercem um papel fundamental na reprodução e produção das identidades, relações e instituições sociais. Entretanto, esses modelos não atuam sozinhos. Junto a eles, convivem outros aspectos estruturais – como classe social e raça/etnia – que influenciam as formas como as sociedades pensam sobre as pessoas e como as próprias pessoas pensam sobre si.


60 Versión sintética del texto “Algunas intimidades académicas sobre hombres, mujeres y políticas desde una lectura de género, en mi diálogo personal con el feminismo en Brasil”, preparado para apoyar exposición en el Seminario ‘Homens e Masculinidades: prácticas de intimidades e políticas públicas”, Recife, Brasil, septiembre de 2010.



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No universo simbólico de gênero, dentro de uma sociedade, podem co-existir diversos modelos de gênero e dentre eles um pode ser hegemônico, ou seja, concentrar maior poder em relação aos demais. A existência de um modelo hegemônico não exclui a possibilidade de ocorrerem flexibilizações ou negociações sobre o que se entende por masculino e por feminino. Assim, nas esferas individuais e sociais, “a cristalização de características tidas como exclusivas de um gênero pode tanto levar a uma não legitimação de identidade de um gênero como suscitar transgressões de um gênero em busca de outro” (Gomes, 2008: 65).
Especificamente no que se refere à construção da masculinidade, um dos aspectos hegemônicos que circula amplamente no imaginário social diz respeito à formação do masculino em oposição ao feminino. Nesse sentido, homem e masculinidade são expressões que costumam significar a mesma coisa. Fernández (2001), no entanto, considera que homem – num senso estrito – é uma designação para aqueles sujeitos que possuem características sexuais específicas, designadas pela cultura, e adotam determinados padrões que os fazem serem reconhecidos como homem. Em contrapartida, segundo o mencionado autor, o masculino – assim como o feminino – é uma categoria que assume uma maior fluidez, não se reduzindo a um corpo de homem ou de mulher de maneira estanque. Nesse sentido, para ele, homens e mulheres tanto podem ter características masculinas como femininas.
No senso comum, costuma ser muito difícil os homens reconhecerem que podem ter tanto as características tidas como masculinas quanto às consideradas femininas. Isso pode ser um dos aspectos que contribuem para que medos sexuais sejam sentidos por homens.
Os medos sexuais masculinos que circulam no imaginário social podem afetar a sexualidade dos homens. Isso não significa que esses medos afetem a todos os homens ou que afetem de mesma maneira aqueles que por eles são influenciados.
No conjunto desses medos, destaca-se a homofobia, que pode ser explicada pelo imaginário de que as relações entre gêneros devem ser pensadas a partir e unicamente do eixo da heterossexualidade, instituindo-se uma heteronormatividade para os gêneros. Em outras palavras, se constrói uma naturalização da heterossexualidade como algo a ser vivido por todos, homens e mulheres. Ilustrando o predomínio dessa norma, destaca-se uma pesquisa, realizada em 102 municípios brasileiros, com amostra probabilística com 2.363 entrevistados, que

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concluiu que 89% dos entrevistados foram contra a homossexualidade masculina e 88% contra a feminina (Almeida, 2007).
Aprofundando a discussão sobre a relação entre masculinidade e heterossexualidade, Welzer-Lang (2001) observa que os homens são definidos não só a partir de um aparelho genital tido como masculino, mas também pelo fato deles todos terem que atestar que seus desejos sexuais se voltam para o sexo oposto. Assim, aqueles que querem viver sexualidades de uma forma não-heterocentrada passam a ser rotulados como “anormais”, associados a mulheres e tratados como elas e, nesse sentido, rotulados como “passivos” ou “inferiores”.
Segundo o mencionado autor, esse padrão de normalidade faz com que, de um lado, se conceba a superioridade do homem sobre a mulher e, de outro, normatiza a sexualidade masculina, produzindo uma visão heterocentrada e homofóbica sobre o homem normal, entendido como ativo, dominante e não-afeminado. Todos os homens que não se enquadram nessa lógica serão os “outros”, pertencendo ao grupo dos que são dominados, como as mulheres e crianças.
A homofobia pode produzir outros medos nos homens tidos como “normais”, tais como: ser tocados nas suas nádegas ou no seu ânus (partes do corpo masculino comumente interditas); participar de uma relação sexual, em que a mulher assume um papel mais ativo para que haja um maior prazer para ela ou para ele próprio e receber demonstrações afetivas de outro homem (mesmo consideradas como não-sexuais).
Apesar de a homofobia orientar a expressão da intimidade entre os homens, em determinados espaços – onde a mulher não é admitida – as interações entre meninos e homens podem ser vividas intensamente, como nas equipes de futebol e acampamentos, situações em que os homens podem ter os seus corpos admirados e tocados ou comparados com os dos outros homens (Louro, 2000). Isso, de certa forma, aponta para uma flexibilização da heteronormatividade, em determinadas situações.
São várias as consequências da homofobia que influenciam a sexualidade masculina. Uma delas é a intolerância para com as pessoas que sentem desejo e prazer sexual por outras do mesmo sexo ou que transitam entre ambos os sexos. Esse fato pode gerar um sofrimento nos homens que sentem atração por outros homens, estimulando uma autorepressão. Numa sociedade regida por uma ética compreensiva – em que se aceita a manifestação da pluralidade como parte da ordem social – não há espaço



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para essa intolerância. Anseios democráticos, expressos em documentos internacionais e nacionais, caminham na direção de assegurar os direitos também no campo da sexualidade e um deles se refere ao fato de a pessoa ter o “Direito de expressar livremente sua orientação sexual: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras” (Brasil, 2006: 4).
Junto ao medo de ser tocado na sua parte “inferior” (traseira), o homem pode concentrar a sua preocupação de falhar na hora “h” (Damatta, 1997), podendo experimentar algum grau de dificuldade de ereção. Pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo, com 10 mil pessoas, em 19 cidades, aponta que a falta de ereção é um dos quatro grandes temores do homem brasileiro. Os outros três são perda da libido, adoecer e a queda do poder aquisitivo (Vinhal, 2008). Esses temores, de certa forma, se ancoram no modelo hegemônico de masculinidade, onde o principal eixo é a dominação. Assim, não ter ereção, não ter libido, adoecer e perder o status de provedor são “problemas” que comprometem as marcas identitárias do ser homem (Nascimento & Gomes, 2008).
Segundo Rodrigues Jr. (2009), a disfunção erétil pode ser uma dificuldade: em ter ereção rígida, em manter ereções penianas rígidas ou perder a ereção, fazendo com que a relação não seja concluída. Para esse autor, a disfunção erétil se associa à impotência. No entanto, essa última expressão também abrange a incapacidade de procriar.
A disfunção erétil pode ter causas de ordem orgânica ou de ordem psicológica e, embora possa ocorrer com maior frequência à medida que o individuo envelhece, não se relaciona apenas com a idade. Abdo e colaboradores (2006), em estudo transversal com 2862 homens maiores de 18 anos, verificaram uma prevalência de disfunção erétil de 45,1%, sendo 31,2% mínima, 12,2% moderada e 1,7% completa. Seja para lidar com as causas de ordem orgânica, seja para melhor compreender as de ordem psicológica, faz-se necessário que se levem em conta os aspectos culturais. Simbolicamente, a ereção costuma se associar à força e potência, constituindo-se numa das expressões centrais da masculinidade.
A mídia – direta ou indiretamente e séria ou jocosamente – costuma colocar em pauta os problemas de ereção. Em torno desse tema, não só ocorrem avanços no campo das ações que visam a promoção da saúde sexual masculina, como também se criam cobranças aos homens para que possam ter um desempenho sexual “adequado”, que costuma ser



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atestado pelo fato de exibir um pênis ereto. Essa pressão pode ser a raiz de problemas de ereção de alguns homens. Para Figueiredo Neto (2009), essa preocupação muito grande com o desempenho faz com que se esqueça de compartilhar, no lugar de simplesmente mostrar, fazendo da cama um palco de concurso, ao invés de torná-la um cenário de pessoas que se amam, se atraem, brincam um com o corpo do outro e, por consequência, obtêm prazer. Além disso, no atual cenário da sofisticação tecnológica, há uma maior possibilidade de enfrentamento dos medos associados à disfunção erétil, através da busca de tratamentos que poderiam restituir ao homem a virilidade - tida como perdida - e, consequentemente, o poder.
Outra grande preocupação de alguns homens – que pode assombrar suas expectativas sobre o seu relacionamento sexual com sua parceira ou seu parceiro – é o tamanho do pênis, associado ou não à falta de ereção. Segundo Berg (2009), embora o tamanho médio do pênis em adultos seja de 12 centímetros, em seu estado flácido, e de 13 a 18 centímetros de comprimento, em seu estado ereto, não há um padrão único entre os grupos estudados. Ainda segundo o autor, o pênis patologicamente reduzido é aquele que mede quatro centímetros, em estado flácido, e sete centímetros, em ereção.
O mencionado autor observa que, desde cedo, os meninos são incentivados a se preocuparem com o tamanho do pênis, seja a partir de informações erradas, seja pelo excesso de preocupação dos pais em examinar constantemente esse órgão, seja ainda por conta das comparações feitas entre adolescentes, medindo seus membros sexuais. Para ele, os temores, muitas vezes infundados, também surgem pelo fato de revistas especializadas e filmes eróticos utilizarem atores com os órgãos genitais avantajados. Esses veículos midiáticos também costumam realçar o tamanho do pênis a partir de ângulos das fotos e tomadas de câmera. Sobre isso, Berg (2009) conclui que esse “marketing negativo” é mais desfavorável aos homens do que as belas estátuas gregas e romanas que – com o tamanho de seus pênis – poderiam deixar todos os homens satisfeitos.
O fato de o pênis ser foco não só do senso comum, mas também dos meios científicos e midiáticos, tem favorecido o crescimento de um vasto mercado com a promessa de se conseguir um aumento ou um alargamento peniano, tendo como uma das principais ancoragens no orgulho masculino com o seu “equipamento” (Haiken, 2000). O apelo desse mercado não atinge apenas os homens que têm ou pensam ter um pênis pequeno, mas também captura aqueles que nutrem o desejo de ter



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um membro sexual acentuadamente desenvolvido para que sua virilidade seja simbolicamente reforçada ou para que seja foco de admiração de mulheres ou de outros homens. Nesses casos, o ditado popular de que “tamanho não é documento” é esquecido ou passa ao não ter nenhum valor.
Berg (2009) observa que o pênis não é um simples órgão no imaginário popular, mas costuma ser visto como “uma máquina”, “uma obra de arte”, “uma decepção”, “uma arma”, “um cetro” enfim como “um símbolo de força e poder”. Ainda segundo o mencionado autor, embora muitos homens expressem uma intimidade com seu pênis, batizando-o com nomes próprios e apelidos, desconhecem o mais básico sobre o seu “funcionamento”.
Por que tanta preocupação com o pênis? Inúmeras respostas podem ser formuladas para essa questão. Entretanto, não se pode descartar a idéia de que essa preocupação tem muito a ver com o símbolo cultural da virilidade. O pênis pode assumir o papel de um arquétipo em diversas épocas para que homens construam a sua identidade masculina e, nesse sentido, problemas – reais ou fictícios – a ele relacionados podem arranhar essa identidade, comprometendo as imagens de fertilidade, força e poder.
A partir dessa perspectiva, os temores suscitados pela homossexualidade, pela possibilidade de não se ter ereção e pelo tamanho “adequado” do pênis podem ter em suas origens questões relacionadas aos modelos culturais de masculinidade. O lidar com esses temores demanda não só o desenvolvimento de tecnologias ancoradas em conhecimentos cientificamente validados, mas também mergulhar no imaginário social para que se acessem os possíveis nexos estabelecidos entre esses medos e as marcas identitárias das masculinidades, hegemônicas ou subordinadas. Ainda que esse mergulho não traga soluções concretas ou imediatas, ele pode ao menos possibilitar uma maior compreensão da problemática em questão, aumentando com isso a possibilidade de ações exitosas voltadas para o enfrentamento dos medos sexuais masculinos.

5.2. Sexualidade masculina e cuidados em saúde
Embora não se possa afirmar que todos os homens sejam afetados por medos sexuais e que os mesmos afetem da mesma maneira aqueles que por eles são influenciados, não se pode deixar de levar em conta que muitos desses medos se relacionam à resistência por parte dos homens a



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uma conduta de cuidados em saúde. As dificuldades de prevenção e de adesão ao tratamento tanto do câncer prostático, como das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), aí se incluindo a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), são exemplos emblemáticos para se discutir o comprometimento da sexualidade masculina por conta da influência do modelo hegemônico de masculinidade.
Em relação à prevenção e ao tratamento do câncer de próstata, para que se avance nessa discussão, há que se destacar a dimensão simbólica da próstata. A próstata é uma glândula que só o homem possui e que se localiza na parte baixa do abdômen. Nela se produz parte do sêmen, um líquido espesso que contém os espermatozóides produzidos pelos testículos e que é eliminado durante o ato sexual. O câncer de próstata surge quando, por razões ainda não conhecidas pela ciência, as células prostáticas passam a se dividir e se multiplicar de forma desordenada, levando à formação de um tumor. Caso não seja diagnosticado a tempo, esse câncer pode trazer sequelas como infertilidade, impotência sexual, infecção generalizada, problemas urinários e até mesmo ocasionar a morte. No entanto, é uma patologia que pode ser detectada precocemente através de métodos diagnósticos de triagem (Gomes et al 2008; Guerra, Moura Galo e Mendonça, 2005; Miranda et al 2004).
Em termos de diagnóstico precoce do câncer de próstata, costuma-se recomendar o exame clínico (toque retal ou toque digital da próstata) e o exame de sangue para a dosagem do antígeno prostático específico, conhecido por PSA. Esses exames, além do baixo custo, possuem boa sensibilidade e especificidade, porém para muitos homens o toque retal ainda representa algo que mexe com características identitárias masculinas (Gomes et al 2008).
Gomes e colaboradores (2008) apontam que o exame de toque retal não toca apenas na próstata. Ele toca em aspectos simbólicos do ser masculino que, se não trabalhados, podem não só inviabilizar essa medida de prevenção como também trazer outras implicações para a saúde do homem em geral. Os homens tendem a perceber o toque retal como uma invasão em um espaço interdito de seu corpo e são acometidos por um medo de, mediante esse toque, haver ereção do pênis e a essa ser imputado um significado de excitação. Nesse caso, a ereção se encontraria tão fortemente associada ao prazer que não se conseguiria imaginá-la como uma simples reação fisiológica. Sendo assim, deixar-se tocar nessa parte “inferior” colocaria em questão a masculinidade de quem se deixa tocar. Essa idéia é reforçada no senso comum através de piadas do tipo “e se o cara gostar do toque e ficar viciado?”



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Os homens podem, ainda, fazer uma associação entre toque retal e penetração sexual. Essa imagem de ser penetrado, que se constrói em torno do exame, pode fazer com que os homens expressem constrangimentos e resistências, uma vez que no imaginário social o masculino se associa ao penetrador (ativo) e não ao ser penetrado (passivo). A condição de “passividade” no momento do exame situar-se-ia em oposição a um modelo vigente de “ser homem” (Gomes, 2008; Gomes et al, 2008).
Um estudo realizado por Santos (2006) apontou que, no caso do câncer de próstata, os tratamentos podem interferir na sexualidade masculina, causando perda do desejo sexual e disfunção erétil. Analisando o relato oral de 10 homens com câncer de próstata que foram submetidos a tratamentos, com idades entre 51 e 82 anos, a autora identificou que essa situação faz com que os homens sintam-se frágeis em sua masculinidade. Assim, o medo das implicações desse tratamento na sexualidade pode afastar a maioria dos homens da busca de um diagnóstico dessa doença. A recusa em receber esse diagnóstico pode funcionar como um mecanismo de proteção do comprometimento da masculinidade.
Outro fantasma que povoa o imaginário masculino diz respeito às DST que, geralmente, manifestam-se por meio de feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas nas genitálias (Brasil, 1999). Nos últimos anos, principalmente após o inicio da epidemia da Aids, as DST readquiriram importância como problemas de saúde pública. A adoção de práticas de sexo mais seguro – sexo sem o risco de ser contaminado ou contaminar o(a) seu(sua) parceiro(a) – ainda encontra grande resistência por parte dos homens. Parte dessa resistência pode se explicar pelo fato das estratégias de prevenção nem sempre estarem sensíveis às questões do campo simbólico da masculinidade. Sobre isso, Jordaan (2007) critica a chamada estratégia “ABC” (pelas iniciais em inglês: A para a abstinência; B para ser-se fiel a um/a só parceiro/a, e C para o uso de preservativos), implementada na África do Sul por não conseguirem responder à especificidade da masculinidade, nem das relações de gênero.
Em relação à questão da abstinência como forma de prevenção de DST, essa estratégia desconsidera que a relação sexual para o homem pode ser entendida como uma forma de comprovar a virilidade e que, entre os jovens a primeira relação sexual pode ser vista como um marco ou o primeiro passo para ser homem. (Rebello e Gomes, 2009; Gomes, 2008; Jordaan, 2007). Sendo assim, a abstinência não se constitui uma opção de fácil adesão.


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No que se refere à fidelidade, as estratégias baseadas nesse princípio podem não alcançar êxito junto a determinados segmentos masculinos, uma vez que pode mexer com o imaginário da perda do interesse sexual. Assim, a prevenção baseada na fidelidade esbarra no modelo cultural que estimula os homens a terem muitas parceiras sexuais, associando o ser infiel àquele que tem a sua virilidade atestada e potencializada (Guerriero et al, 2002 ; Jordaan, 2007).
Problematizando a resistência dos homens ao uso do preservativo, vários motivos são apontados. Em países da África, onde ter muitos filhos determina o “ser homem”, o uso do preservativo seria um inibidor desta prova de masculinidade (Jordaan, 2007). No Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, em uma pesquisa realizada com homens jovens universitários identificou-se que interromper a relação sexual para colocar o preservativo ainda é motivo de angústia por esses homens temerem perder a ereção, o que poderia ser entendido pela parceira como ausência de virilidade (Rebello e Gomes, 2009).
O uso de preservativo também envolve negociações e relações de poder nem sempre fáceis de se contornar. Ainda que o uso do preservativo seja amplamente difundido como medida preventiva nos meios de comunicação e ofertado pelo Estado através de unidades básicas de saúde, a negociação de seu uso em relações afetivo-sexuais torna-se difícil por poder ser entendida como desconfiança entre os parceiros, incompatível com uma suposta fidelidade esperada neste tipo de relação (Rebello e Gomes, 2009; Gomes, 2008; Jordaan, 2007; Guerriero et al, 2002; Silva, 2002). A este respeito, Maia e colaboradores (2008) afirmam que as dificuldades decorrentes da hierarquização de poderes nas relações afetivo-sexuais, ao impedir que haja uma comunicação sobre a sexualidade entre parceiros, são justificativas para a não utilização de práticas de sexo seguro em relacionamentos estáveis.
5.3. Subsídios para as políticas de saúde voltadas para a sexualidade masculina
Recentemente, o Ministério da Saúde liderou uma discussão na internet – via consulta pública – acerca de uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. A motivação dessa discussão parte principalmente da constatação de que esse segmento se apresenta com um maior nível de vulnerabilidade para os programas de saúde, trazendo grandes desafios para o setor público e, em particular, para o nível da

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gestão. Assim, faz-se necessária a adoção de estratégias para o enfrentamento dessa questão.
Essa iniciativa reflete, dentre outros aspectos, uma sensibilidade com as especificidades de gênero e uma preocupação em caminhar na direção de um maior envolvimento de homens nas questões de saúde relativas tanto às mulheres quanto a si próprio. Esse movimento em si merece a atenção e a valorização de todos os profissionais que empreendem ações voltadas para a promoção da saúde e a prevenção de doenças a partir de uma perspectiva de gênero.
No que tange à sexualidade masculina, essa proposta de política da saúde do homem veio reforçar a promoção de direitos sexuais e reprodutivos – que já figuravam em outros documentos nacionais e internacionais – como os relacionados ao: envolvimento dos homens na saúde reprodutiva, respeito às orientações sexuais e o exercício da sexualidade que não traga riscos para os sujeitos. Percebe-se, assim, a partir da leitura do texto inicial da política em questão, um esforço que o Estado tem empregado em assegurar um espaço de cidadania plena para o segmento masculino.
Junto a isso, constata-se a necessidade de se refletir sobre possíveis lacunas que ainda devem ser preenchidas, seja no campo das políticas públicas, seja no âmbito das estratégias que viabilizem tais políticas. O emprego do termo “possíveis lacunas” é proposital, uma vez que, dependendo da perspectiva adotada para a leitura do documento em questão, é que se constatam ou não as lacunas.
Levando em conta a trajetória deste trabalho – que se inicia pelos medos sexuais masculinos e passa pelas implicações desses medos no campo da promoção da saúde sexual masculina – pelo menos duas lacunas podem ser destacadas.
A primeira lacuna se refere ao fato de uma política pública de sexualidade masculina necessitar de uma maior articulação entre os princípios e as estratégias dessa sexualidade com a sexualidade feminina, numa perspectiva relacional de gênero. Caminhando por essa lógica, observa-se que uma política de sexualidade masculina avança na medida em que consegue ganhar maior contundência na esfera da discussão das relações de gênero, buscando romper com os velhos estereótipos oriundos da cultura patriarcal que se tem construído como armadilhas para o ser homem. Para a superação da cultura patriarcal, que tende a aprisionar homens e mulheres, uma das estratégias é a compreensão da adoção das múltiplas masculinidades que incorporem outros modelos



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para além do hegemônico. Acredita-se que uma política voltada especificamente para segmentos masculinos não pode se silenciar sobre isso.
Outra lacuna que se destaca é a ausência da valorização da dimensão simbólica da sexualidade masculina. As diretrizes dessa política não podem apenas se ancorar em dados epidemiológicos e em conclusões de ensaios clínicos, ainda que tais referências sejam de fundamental importância, essas não dão conta da complexidade e da dimensão subjetiva que envolve o tema. Os diversos segmentos masculinos quando subjetivam as políticas o fazem a partir de diversas perspectivas. Dentre essas perspectivas, ressalta-se o imaginário social acerca da sexualidade. Esse imaginário pode servir de ancoragem para os homens – por adesão ou por oposição a ele – esboçarem suas formas de pensar, sentir e agir. Caminhar no desvendamento dessas questões que simbolicamente se fazem presentes na sexualidade masculina pode garantir um maior êxito das políticas.
Ampliando a discussão, além das lacunas, observam-se pelo menos dois desafios a serem superados para se garantir o êxito dessa política. Um seria a organização das unidades básicas de saúde para além de um espaço infantil e feminilizado e o outro seria a qualificação/treinamento dos profissionais de saúde para o atendimento ao segmento masculino numa perspectiva de gênero.
Problematizando o primeiro desafio, a construção e organização do ambiente das unidades de saúde como um espaço quase que exclusivamente reconhecido como sendo para as necessidades da mulher e da criança pode dificultar a inserção e a permanência do segmento masculino nas unidades básicas de saúde. Muito além da dimensão estrutural que se relaciona com aspectos vinculados ao horário de funcionamento das unidades e outras dificuldades de acesso, muitos homens se sentem pouco à vontade por não perceberem esses espaços como sendo um lugar que possam tratar de suas questões sexuais. A mudança do imaginário dos serviços públicos de saúde, ampliando-se para um espaço de inter-relações de gênero pode, de certa forma, fazer com que a sexualidade masculina se desloque do lugar coadjuvante nesse serviço para se tornar um dos protagonistas da saúde sexual, sem assimetrias.
Em relação ao segundo desafio, o Estado ao regular a política precisa garantir minimamente que a mesma seja implementada com eficiência para o público-alvo. Nesse sentido, a qualificação regular e permanente



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da equipe de profissionais de saúde numa perspectiva relacional de gênero se faz necessária, à medida que os profissionais também se encontram imersos no imaginário social da segmentação e fragmentação da cultura de gênero. Assim, o corpo de profissionais deve ser capaz não só de compreender as demandas do masculino e atender bem os homens, como desenvolver uma abordagem que acolha e estimule a participação e permanência desses sujeitos nas unidades de saúde.
Por último, sempre é bom lembrar que a discussão sobre qualquer que seja a política pública, entendendo essa como um conjunto de ações coletivas que se voltam para a garantia dos direitos sociais, deve se traduzir numa construção que se dá sempre no interior de uma certa complexidade social, existindo espaços de disputa de poder que ganham corpo e materialidade tanto através de instituições objetivas na materialização da relação Estado/sociedade, quanto a partir das relações subjetivas que são caracterizadas e perpassadas pelas instâncias sócio-culturais.

Referências:
ABDO, C. H. N.; OLIVEIRA JR, W. M., SCANAVINO, M. T.; MARTINS, F. G. Disfunção Erétil - resultados do estudo da vida sexual do brasileiro. Revista da Associação Medica Brasileira, v. 52 supl. 6 p. 424-9. 2006.
ALMEIDA, A. C. A Cabeça do Brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2007.
BERG, O. L. D. O homem e o pênis. As disfunções sexuais masculinas...
suas causas e tratamentos. Disponível em:


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