Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas



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HOMENS E MASCULINIDADES: práticas de intimidade e políticas públicas


Instituto PAPAI

Gema/UFPE

Promundo

Margens/UFSC








2010

Comissão Científica
Dr. Aécio Matos (UFPE); Me. Alexandre Franca Barreto (UNIVASF); Dr. Benedito Medrado (UFPE) Dra. Betânia Ávila (SOS Corpo); Carlos Zuma (Noos); Me. Cláudio Pedrosa (Rheg); Me. Daniel da Costa Lima (ISER/RJ); Ma. Edna Granja (Papai/Gema); Dra. Elisiane Pasini (Themis); Dr. Felipe Rios (UFPE); Dr. Fernando Seffner (UFRGS); Dr. Jorge Lyra (Papai); Dra. Maria Juracy Toneli (UFSC); Dra. Karla Galvão (UFPE); Dra. Lady Selma (UFPE); Dr. Luiz Eduardo Batista (SP); Dra. Márcia Couto (USP); Dra. Márcia Longhi; Me. Marcos Nascimento (Promundo); Dra. Margareth Arilha (CCR; Nepo/Unicamp); Ma. Maria Lúcia Lima (UFPA); Dra. Marion Quadros (UFPE); Ma. Maristela Moraes (Papai); Dr. Parry Scott (UFPE); Dra. Paula Machado (UFRGS); Dr. Pedro Nascimento (UFAL); Me. Ricardo Castro (Papai); Dr. Ricardo Pimentel Méllo (UFCE); Dr. Romeu Gomes (Fiocruz/RJ); Ma. Sandra Umbehaum (FCC); Sérgio Barbosa (CES); Dr. Sérgio Carrara (UERJ); Dra. Sibelle Barros (ES); Sylvia Cavasin (ECOS); Thiago Rocha (Papai); Dr. Wagner Figueiredo; Dra. Zeidi Trindade (UFES).
Apoio
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; FACEPE – Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco; Fundação Ford; IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Ministério da Saúde/Área Técnica de Saúde do Homem; Ministério da Saúde/Área Técnica de Saúde da Mulher; Secretaria Especial de Políticas para as mulheres e UNFPA - Fundo de População das Nações Unidas.
Colaboração
Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO); Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPE; Rede de Homens pela Equidade de Gênero (RHEG); Fórum LGBT de Pernambuco.
Benedito Medrado, Jorge Lyra,
Mariana Azevedo e Jullyane Brasilino
Organizadores


HOMENS E MASCULINIDADES: práticas de intimidade e políticas públicas

1ª edição


Recife/PE
2010



Recomendamos a reprodução, total ou parcial, desta obra, desde que não haja fins de lucro e que seja citada a fonte. Licença: http://creativecommons.org/licenses/by-nc/3.0/deed.pt

H765 Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas/ organizado por Benedito Medrado, Jorge Lyra, Mariana Azevedo e Jullyane Brasilino – Recife: Instituto PAPAI, 2010. 184p; 16 X 23 cm

Inclui referências
1. Homens - Brasil. 2. Homens - condições sociais. 3. Paterndade. 4. Masculinidades. 4. Gênero. 5. Femuinismo. I. MEDRADO, Benedito. II. LYRA, Jorge. III. AZEVEDO, Mariana. IV. BRASILINO, Jullyane. V. Título.
CDD 306.7.081


CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação. Bibliotecário responsável: Thiago Rocha (Instituto PAPAI) CRB 4-1493

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

Entre práticas de intimidade e políticas públicas. Entre políticas de intimidade e práticas públicas...

À guisa de uma introdução


Benedito Medrado, Jorge Lyra, Mariana Azevedo e Jullyane Brasilino
Instituto PAPAI e Núcleo Gema/UFPE

Cidade e intimidade são conceitos mutuamente irredutíveis, porém radicalmente inseparáveis; ali onde não há política, não pode haver, em sentido estrito, intimidade; e ali onde a intimidade está ameaçada, estas ameaças expressam uma crise do espaço civil (Pardo, 1998).

Para introduzir esta coletânea, escolhemos as provocantes palavras do filósofo Jose Luis Pardo (1998)1, originalmente publicadas em texto cujo curioso título é “Politicas de la intimidad: ensayos sobre la falta de excepciones”.
Sem querer fazer aqui uma distinção inequívoca entre privado e público, convidamos o leitor a pensar estes campos simbólicos e materiais como espaços em que se forjam masculinidades e feminilidades, em que se constroem estratégias de opressão, mas também de libertação.
Os textos que compõem esta coletânea foram produzidos para alimentar os debates durante o 6º Seminário Nacional “Homens e Masculinidades”, realizado entre 1 e 4 de setembro de 2010, tendo como tema central “praticas de intimidade e políticas públicas”.


1 PARDO, Jose Luis – Políticas de la intimidad: Ensayo sobre la falta de excepciones. Logos: Anales del Seminario de Metafísica, Nº 32, 1998, p. 145-196



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Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas
Medrado, Lyra, Azevedo e Brasilino (org.)

Como advertíamos em 1998, na obra lançada durante o 1º Seminário, ao tematizarmos homens e masculinidades, não estamos “inventando a roda”, mas, ao contrário, trilhando caminhos já abertos em outros momentos, por outros atores sociais, nos planos teóricos e políticos.
Naquele texto (Arilha, Unbehaum e Medrado, 1998)2, afirmamos o princípio da equidade de direitos entre homens e mulheres, tanto no ponto de vista da “cidadania pública”, como também da “cidadania privada”. Em outras palavras, defendíamos que à maior participação das mulheres na vida pública (participação feminina no mercado de trabalho, nas organizações políticas e sindicais, usufruto por parte das mulheres de benefícios e recursos econômicos) deveria corresponder maior participação do homem na vida privada: comprometimento com a vida sexual e reprodutiva do casal, com a criação dos filhos, com a divisão das atividades domésticas.
Ao longo dos últimos 12 anos, parece que fomos progressivamente ampliando nosso foco, mantendo o questionamento da masculinidade hegemônica ou dominante (branca, heterossexual, economicamente favorecida), porém partindo da experiência de cada um para uma necessária compreensão dos processos formais de institucionalização de direitos e, consequentemente, de restrições a direitos (em leis, educação formal, saúde pública etc.).
Este movimento passou a integrar esforços desenvolvidos nos últimos trinta anos, quando nos confrontamos coletivamente com dúvidas, inquietações e embates sobre o campo das políticas públicas orientadas pelo olhar de gênero. Em geral, as discussões oriundas deste campo pouco problematizam os homens e as masculinidades, seja como objeto, seja como sujeito, a não ser como contraponto ao debate sobre a autonomia e o corpo das mulheres (Associação Brasileira de Saúde Coletiva, 20053; Lyra, 20084).
Além disso, ainda são notórios os poucos recursos governamentais aportados para formular e executar políticas e programas desta natureza


2 ARILHA, Margareth; UNBEHAUM, Sandra; MEDRADO, Benedito (Org.). Homens e masculinidades: outras palavras. São Paulo: ECOS: Ed. 34, 1998.
3 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. Saúde do homem: alerta e relevância. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, jan./mar. 2005.
4 LYRA, Jorge. Homens, feminismo e direitos reprodutivos no Brasil: uma análise de gênero no campo das políticas públicas (2003-2006). 2008. 262 f. Tese (Doutorado em Saúde Pública) - Departamento de Saúde Coletiva, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz, Recife, 2008.


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(Arilha, 19985; Toneli-siqueira, 20006). Contudo, recentemente, o governo brasileiro definiu em âmbito nacional iniciativas que visam à formulação e implementação de políticas públicas locais voltadas aos homens, especialmente no campo da saúde. Assim, em 2008, foi instituída a Área Técnica de Saúde do Homem dentro do Ministério da Saúde e publicada, em 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (Brasil, 2009)7.
Em linhas gerais, um dos caminhos para implementar, de modo estrutural, uma política de atenção integral aos homens na saúde é busca de maior aproximação com os campos políticos e teóricos consolidados (saúde da mulher, saúde do adolescente, atenção básica, saúde da população negra, saúde mental, saúde da população LGBT), buscando compreender os processos de socialização e a construção de valores machistas em nossa sociedade, afinal gênero se inscreve tanto em corpos como em formas institucionalizadas. A conjuntura política atual nos coloca a necessidade de desenvolvermos reflexões críticas e ações sistemáticas neste campo (Carrara; Russo; Faro, 20098; Medrado; Lyra, 20089; Medrado; Lyra; Azevedo; Granja; Vieira, 200910).
As origens do movimento feminista remontam aos grupos de convivência de mulheres, voltados eminentemente à discussão de suas práticas de intimidade, tomadas em sua dimensão pública, portanto políticas. Assim, reprodução, sexualidade e violência de gênero, entre

5 ARILHA, Margareth. Homens, saúde reprodutiva e gênero: o desafio da inclusão. In: GIFFIN, Karen; COSTA, Sarah (Org.). Questões de saúde reprodutiva. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998. p. 455-465.
6 TONELI-SIQUEIRA, Maria Juracy. Saúde e Direitos Reprodutivos: o que os homens têm a ver com isso? Dossiê Relações de Gênero e Saúde Reprodutiva. Revista Estudos Feministas. Florianópolis, v. 8, n.1, 2000.
7 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde do Homem. Política nacional de atenção integral à saúde do homem: princípios e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/politica_nacional_homem.pdf Acesso em: 24/03/2010.

8 MEDRADO, Benedito; LYRA, Jorge; AZEVEDO, Mariana; GRANJA, Edna e VIEIRA Sirley.
Princípios, diretrizes e recomendações para uma atenção integral aos homens na saúde. Recife: Instituto PAPAI, 2009. Disponível em: http://www.feminismo.org.br Acesso em: 23/03/2010.
9 MEDRADO, Benedito; LYRA, Jorge. Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades. Revista Estudos Feministas, v. 16, p. 20-35, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n3/05.pdf Acesso em: 24/03/2010.
10 CARRARA, Sérgio; RUSSO, Jane A.; FARO, Livi. A política de atenção à saúde do homem no Brasil: os paradoxos da medicalização do corpo masculino. Physis, Rio de Janeiro, v. 19, n. 3, 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/physis/v19n3/a06v19n3.pdf Acesso em:

24/03/2010.



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outros temas antes restritos ao contexto da intimidade, tornam-se pauta e objeto de políticas públicas.
Como nos adverte Maria Betânia Ávila (2000)11, as “práticas feministas de autoconsciência” – inauguradas com os grupos de reflexão (modelo seminal de organização política feminista, cuja dinâmica se baseia na “publicização” da opressão vivenciada no “espaço da intimidade”) instituíram um processo de reconstrução da história da vida privada, situando o privado como político, especialmente a partir do questionamento da ordem familiar, na qual as mulheres não tinham futuro (pelo menos, não como os homens), como afirma a autora, mas sim destino. Baseando-se em Arendt (1988), Betânia argumenta que “a esfera da vida privada foi sempre o lugar da privação e não o espaço da privacidade ou da intimidade”.
O processo progressivo de libertação e construção da autonomia, como bem descreve Betânia, foi vivenciado, com dores e perdas, na medida em que a identidade feminina forjada nesta norma privada – que embasava a ordem pública – sustentava-se em princípios sexistas e em práticas da subordinação e opressão. Contudo, Betânia nos adverte que apesar de ser incontestável a possibilidade das mulheres alcançarem hoje a, assim chamada, “esfera pública”, isso não significa que o modelo dicotômico “homem/esfera pública” versus “mulher/espaço privado” esteja totalmente desfeito (Ávila, 2000).
Para nós, um movimento de afirmação estratégica e a contestação radical da dicotomia público-privado pode contribuir largamente para uma maior aproximação dos homens e das mulheres de políticas de intimidade que possam se performar (para usar uma expressão de Judith Butler), em práticas públicas mais igualitárias.
Um ponto importante de se resgatar, a partir da prática política feminista, é justamente a relação entre vida cotidiana e democracia. A radicalização do projeto democrático exige que a vida cotidiana seja tomada como uma questão fundamental da sua agenda política e da reflexão teórica de quem pensa a transformação social. A partir daí, a dicotomia entre esfera pública e esfera privada e a hierarquização da relação entre produção e reprodução podem ser questionadas e repensadas. É bom lembrar que a organização do tempo social é feita a


11 ÁVILA, Maria Betânia “Feminismo e sujeito político”. Revista PROPOSTA, FASE, Ano 29, n° 84/85, Rio de Janeiro, março/agosto de 2000, p. 7-11.



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partir dessa dicotomia e dessa hierarquização, as quais são baseadas na desigualdade de gênero, e são fundamentais para reprodução e acumulação do capital

(Ávila, 2000, p. 9).
É com essas indagações e provocações que propusemos a organização deste livro e convidamos alguns dos participantes do 6º Seminário “Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas”, realizado em Recife, entre 1º e 04 de setembro de 2010, a alimentarem este debate com seus questionamentos, experiências e proposições críticas.
Iniciamos a coletâneas com dois textos, produzidos em sua língua de origem, por um filósofo e matemático mexicano (Juan Guillermo Figueroa Perea) e uma antropóloga alemã, que residiu no Brasil, na década de 1990, e vive há vários anos, na Espanha (Verena Stolke).
No texto abre-alas, Juan Guillemo produz uma narrativa analítica (num bom estilo “contador de histórias”) sobre seus diálogos com/sobre o feminismo, especialmente em suas andanças pelo Brasil, apresentando-nos um conjunto de reflexões pessoais, políticas e academicamente construídas, sobre pontos de tensão, dúvidas, diálogos, desencontros e aprendizagens. Ao narrar suas “intimidades acadêmicas e políticas” – expressão usada pelo autor – a intenção parece ser mesmo a de compartilhar inquietações na busca de boas perguntas e não necessariamente propor saídas ou respostas.
Munida do mesmo espírito inquieto e provocador, Verena Stolke, nos brinda com um texto denso no qual elege a biotecnologia como tema “bom para pensar”, na medida em que nos impõe uma ruptura da dicotomia natureza-cultura, ou mais precisamente entre a liberdade pessoal e a determinação genética. O exercício proposto por Verena pode nos ajudar a compreender o estado atual do debate sobre noções convencionais de reprodução, parentesco e, especialmente, das relações de sexo/gênero.
Pensando os recentes investimentos na implementação de uma política brasileira de atenção aos homens na saúde, Benedito Medrado, Jorge Lyra, Mariana Azevedo e Jéssica Noca enfatizam em seu texto a necessidade de uma abordagem mais complexa para a formulação, implantação e implementação de uma política de atenção integral aos homens na saúde; uma abordagem que reconheça, a partir do olhar feminista de gênero, as contradições entre processos de socialização e sociabilidade, de homens e mulheres. Para tanto, propõem uma leitura



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crítica da sociedade disciplinar à sociedade de risco, afirmando o risco-aventura como princípio norteador para a construção de propostas mais criativas e “irônicas” no campo da atenção integral aos homens na saúde, para além da retórica epidemiológica.
Os textos subsequentes apresentam questionamentos sobre temas relativos aos campos da saúde, educação, trabalho, direitos entre outros, nos quais os homens e as masculinidades são em geral referidos a partir de uma tendência à universalização, desconsiderando-se a diversidade de experiências dos homens e a polissemia de sentidos sobre masculinidade.
No quarto capítulo, Russel Parry Scott apresenta uma leitura cuidadosa sobre arranjos domésticos em que residem os homens e a necessidade de atentarmos para esses diversos arranjos na formulação de políticas públicas, especialmente no campo da saúde reprodutiva. Parry enfatiza que os homens são plurais e que, para promoção de direitos reprodutivos de mulheres e homens e para a criação de relações de gênero mais igualitárias, é necessário abordar os homens, não somente de acordo com a diversidade de suas características socioeconômicas individuais, mas também de acordo com sua idade e condição residencial, ressaltando que é importante que se trabalhe a favor de políticas para homens que são “de casa” tanto quanto os “da rua”.
Romeu Gomes, Lúcia Emília Rebello e Elaine Nascimento, por sua vez, tratam dos medos sexuais dos homens (e os das mulheres também) a partir de uma leitura de gênero. Problematizam a heteronormatividade compulsória, a homofobia, a disfunção erétil e a preocupação dos homens com relação ao tamanho do pênis. Seguindo essa linha de argumento, embora não se possa afirmar que todos os homens sejam afetados por medos sexuais e que os mesmos afetem da mesma maneira aqueles que por eles são influenciados, os autores afirmam que não podemos deixar de levar em conta que muitos desses medos se relacionam à resistência por parte dos homens a uma conduta de cuidados em saúde. As dificuldades de prevenção e de adesão ao tratamento tanto do câncer prostático, como das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), incluindo a Aids, são exemplos emblemáticos para se discutir o comprometimento da sexualidade masculina por conta da influência do modelo hegemônico de masculinidade. Por fim, trazem subsídios para as Políticas de Saúde voltadas para a Sexualidade Masculina.
Focalizando a vida reprodutiva, Maria Luiza Heilborn toma como ponto de partidas as questões “Por que os homens não tomam cuidado com a



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possibilidade de engravidamento da parceira quando não desejam ter filhos? Por que não existem políticas públicas que se dirijam especificamente a esta parcela da população, transmitindo conhecimentos confiáveis sobre como se prevenir dessa eventualidade?”. Para desenvolver essas questões, a autora apresenta narrativas biográficas produzidas por homens em duas pesquisas por ela coordenadas. O foco do seu argumento está em tornar o aborto visível nas histórias de vida de homens, em particular reconhecendo-os como atores nos processos de decisão. Maria Luiza enfatiza por um lado a parca participação dos homens com a anticoncepção. Contudo, a falta de controle sobre a possibilidade de ter, ou não, um filho parece ser vivenciada como uma inversão hierárquica que causa desconforto na identidade de gênero dos homens com quem dialogou em suas pesquisas.
Gary Barker trata do imperativo do trabalho para os homens para o exercício da masculinidade, diretamente relacionada às possibilidades de produção. O não cumprimento de tal exigência lança os homens em situações de vergonha, estresse, depressão e, talvez para alguns – junto com vários outros fatores – a uma participação em formas variadas de violência armada. Para desenvolver esse argumento Gary traça algumas definições da forma como define as masculinidades e as políticas de gênero.
Os três últimos capítulos constituem ricos ensaios sobre questões conceituais, éticas e estéticas sobre a interface das políticas públicas e as práticas de intimidade.
Maria Juracy Toneli indaga (e nos provoca a refletir) sobre o que significa “práticas de intimidade” ou “práticas na intimidade”. Juracy desenvolve sua questão tomando por base a noção de governamentalidade para pensar estratégias de poder exercidas sobre os corpos de homens e mulheres. Resgata o pensamento político de Foucault no tocante às novas formas que podem assumir as modalidades de luta e de resistência, tais como ele as enumera no texto Sujeito e Poder. Ressalta que o engajamento político deve ser situado em referência ao domínio das governamentalidades e, se não tem pretensão totalizadora/unificadora, encontra-se aberto, em sua forma e conteúdo, ao domínio do politizável. Juracy nos brinda ainda com outras questões: Como problematizar esses modos de sujeição que permanecem a despeito das lutas/movimentos sociais? Como problematizá-los sem cair na armadilha de sujeição às regras estatais, às demandas por novas regulações? Como incentivar novos modos de subjetivação nos quais a ética do cuidado de si reverbere coletivamente? Como problematizar as normas de gênero que



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continuam funcionando com força de lei demarcando o humano/inumano?
Seguindo este exercício reflexivo, Roberto Éfrem Filho aborda o debate a respeito das possibilidades da interferência dos valores morais apreendidos na vida dos sujeitos em campos como os da construção e implementação de políticas estatais, das práticas profissionais, dos serviços públicos, entre outros. Roberto argumenta em seu texto que, no enfrentamento à ética fragmentária, a compreensão das conexões dialéticas entre o específico tomado como ponto de partida e a mutável totalidade pode contribuir para as possibilidades de avanços significativos nos processos históricos de construção da contra-hegemonia.
Maristela Moraes encerra esta coletânea com um singelo, porém audacioso, diálogo com o texto do Roberto Éfrem Filho, na interface com leituras de Judith Burtler (2010) – no que diz respeito ao tema da precariedade da vida e às provocações queer – e com Maria Lucia Karam (2003) – naquilo que tem a ver com as políticas sobre drogas. Relaciona, assim, tais provocações com os campos de debates sobre usos de drogas e redução de danos, em suas interfaces com as políticas públicas brasileiras e movimentos sociais, tema indispensável aos estudos e ações voltadas aos homens, às masculinidades e às relações de gênero.
Antes da leitura dos textos que se seguem, vale a pena resgatar as palabvras e Pardo (1998), cujas idéias deram início a esta Introdução. Para este autor, a distinção/solidariedade entre o público o e íntimo não pode confundir-se com nem sobrepor a distinção “clássica” entre o público e o privado. Segundo aquele autor, quando isso acontece, o político tende a identificar-se com os abusos totalitários do poder. A “defesa da intimidade” fica, por sua vez, subsumida em uma perversa e equivocada pretensão de império do privado sobre o público.
Setembro de 2010.


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SUMÁRIO

1. Algunas “intimidades académicas y políticas” en mi diálogo personal con


el feminismo en Brasil




Juan Guillermo Figueroa Perea .....................................................................

17

2. A propósito del sexo




Verena Stolcke...............................................................................................

33


3. Reflexões irônicas sobre gestão pública dos homens na saúde: entre a


disciplina e a positividade do risco




Benedito Medrado, Jorge Lyra,




Mariana Azevedo e Jéssica Noca...................................................................

53

4. Homens, domesticidade e políticas públicas na saúde reprodutiva




Russel Parry Scott ..........................................................................................

79


5. Medos sexuais masculinos e política de saúde do homem: lacunas e desafios
Romeu Gomes; Lúcia Emília Figueiredo de Sousa Rebello e Elaine Ferreira do Nascimento....................................................................................................95
6. Homens jovens e os atropelos da heterossexualidade: contracepção e aborto
Maria Luiza Heilborn ...................................................................................109
7. Trabalho não é tudo, mas é quase tudo: homens, desemprego e justiça social em Políticas Públicas
Gary Barker..................................................................................................125


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8. Práticas de/na intimidade: o que queremos dizer com isso?
Maria Juracy Filgueiras Toneli 139
9. (Anti) éticas e dialéticas: algumas atrevidas digressões acerca das
normatividades (contra-) hegemônicas
Roberto Efrem Filho 151
10. Algumas implicações da ética punitiva e da ética fragmentária para as lutas contra-hegemônicas no campo das políticas públicas sobre drogas: na trilha das provocações atrevidas de Roberto Éfrem Filho

Maristela Moraes.........................................................................................

167

SOBRE OS AUTORES E AUTORAS ................................................................

177


16



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