Gêmeas psicografia Mônica de Castro espírito Leonel



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Publicado porkerlannyaraujosousa1995
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―  Elas  não  são  suas  filhas  ―  continuou  o  sujeito  com 

agressividade. ― Não mais. 

Tamanho foi o susto que Roberval afrouxou a mão e tapou 

a boca, esforçando-se para compreender as palavras sem sentido 

daquele estranho. 

―  Não  são...?  ―  balbuciou.  ―  Mas  como?  Acabaram  de 

nascer. Minha Severina e eu... 

Calou-se de repente e olhou para Severina, que acalmara a 

agonia e os fitava perplexa. 

―  Deixe  de  ser  estúpido,  homem!  ―  berrou  o  moço  de 

repente. ― Não acha que eu ia me deitar com a sua mulherzinha 

molambenta, acha? 

Roberval não respondeu. Não entendia nada, muito menos 

o  que  aquele  homem  dizia.  De  seu  canto,  Severina  chorava  em 

silêncio. 

―  Vamos  embora  daqui  ―  exigiu  a  mulher,  agora 

balançando  a  menina,  que  começava  a  chorar,  despertando  a 

outra, que chorava também. 

O  homem  começou  a  se  afastar,  mas  Roberval  o  segurou 

novamente. 

―  Ah!  Isso  é  que  não!  Ninguém  sai  daqui  com  as  minhas 

filhas. Ninguém! 

―  Você  é  surdo?  ―  falou  a  mulher,  demonstrando  certo 

receio. ― Não o ouviu dizer que elas não são mais suas filhas? 

― Isso é um disparate! Pois se Severina acabou de dar à luz 

agora mesmo... 

Buscou  o  apoio  de  Severina,  que  chorava  de  dor  e 

arrependimento. 

―  Perdoe-me,  Roberval ―  rumorejou ela.  ―  Eu  não  devia... 

Mas não sabia o que estava fazendo... 




― Fazendo o quê? O que você fez, mulher? 

Severina não conseguia falar. O ventre doía imensamente, e 

o  coração  estava  estraçalhado.  Como  dizer  a  Roberval  que  dera 

as  meninas  a  Leocádia,  em  troca  do  dinheiro  de  gente  rica  da 

capital? E como fazer agora para mostrar o seu arrependimento 

e  contar  a  Leocádia  que,  vendo  a  indignação  e  o  desespero  de 

Roberval, e ouvindo o choro inocente de suas filhas, mudara de 

idéia? 


― Oh! Meu Deus, o que foi que eu fiz? ― lamentou-se ela. ― 

Perdão,  Dona  Leocádia,  perdão!  Mas  não  posso.  Não  posso  me 

desfazer assim dos meus rebentos. 

―  Não  pode?!  ―  rosnou  Leocádia.  ―  Nada  disso,  menina. 

Você tem um trato comigo. Vai receber o seu dinheiro conforme 

o combinado. 

―  Mas  que  dinheiro?  ―  berrou  Roberval  inflamado.  ―  Que 

história  é  essa  de  dinheiro?  E  desde  quando  Severina  pode  pôr 

preço nas meninas? 

―  Ela  pôs  ―  prosseguiu  Leocádia.  ―  E  trato  é  trato.  Não 

pode voltar atrás agora. 

― Isso é que não! ― exaltou-se Roberval. ― Ninguém tira as 

minhas filhas daqui. 

― Eu desisto do trato ― contrapôs Severina, entre soluços e 

gemidos. ― Pode ficar com o dinheiro, Dona Leocádia. Não quero 

mais. 


―  Nada  disso!  ―  objetou  a  parteira,  indignada.  ―  Gastei 

muito  com  você,  Severina.  Ou  pensa  que  aqueles  mimos  todos 

saíram de graça? 

― Eu devolvo tudo. Vou arranjar trabalho... 

―  Viajamos  de  muito  longe  só  para  buscar  esses  bebês  ― 

cortou a mulher, com irritação. ― Não sairemos daqui sem eles. 




―  Isso  é  que  não!  ―  grunhiu  Roberval  irado,  agarrando 

outra vez o homem pelo paletó e tentando tirar-lhe a criança do 

colo. 

―  Pare,  Roberval!  ―  gritou  Leocádia  -,  vai  machucar  sua 



filha. 

―  Larguem  as  meninas!  ―  vociferava  ele  enlouquecido.  ― 

Devolvam minhas filhas! 

Como não conseguisse resultado com o homem, Roberval o 

soltou  e  partiu  para  cima  da  mulher,  tentando  arrancar-lhe  a 

outra menina dos braços. Ela não afrouxou, e a gritaria foi geral. 

Severina  berrava  de  sua  cama,  dizendo-se  arrependida  e 

implorando que o casal lhes devolvesse as filhas. Leocádia corria 

de  um  lado  a  outro,  tentando  amparar  as  meninas,  no  caso  de 

caírem, e Roberval puxava o bebê ora da mulher, ora do homem, 

seguindo-se uma balbúrdia e um choro infernais. 

―  Eu  vou  chamar  a  polícia!  ―  berrou  Roberval  por  fim, 

disparando em direção à porta. 

Nem  teve  tempo  de  cruzar  o  portal.  Um  estampido  seco 

ecoou pelo quarto, e uma bala veloz o atingiu por trás, na altura 

do  pulmão.  Roberval  estacou  a  meio,  levou  a  mão  às  costas, 

tentando alcançar o foco da queimação, quando novo estampido 

se  ouviu,  e  outra  bala  o  atravessou  impiedosamente,  fazendo-o 

tombar de borco, a boca escancarada e os olhos abertos para a 

morte. 


― Não! ― berrou Severina do leito, tentando se levantar. ― 

Não! Roberval, não! 

O homem virou para ela o revólver, mas Leocádia o segurou 

pelo  cano,  evitando  olhar  a  outra  sangueira  que  empapava  a 

camisa de Roberval. 

― Não precisa. Ela não vai sobreviver. 

Ele a fitou em dúvida, mas a mulher fez um sinal afirmativo 

com a cabeça, e ele guardou a arma. 




― Vamos embora daqui ― ordenou assustada. 

Saíram  apressados,  com  Leocádia  atrás  deles.  Protegendo 

os  bebês  da  chuva,  entraram  num  carro  e  sumiram  na  estrada 

lamacenta,  ao  mesmo  tempo  em  que  Severina,  sentindo  o 

sangue  entalado  na  garganta,  tossiu  várias  vezes  e  vomitou, 

virando  o  corpo  para  o  lado  e  despencando  da  cama  de  palha. 

Silenciou. 

 O  tempo  em  Brasília  continuava  quente  e  seco,  e  Suzane 

chegou da rua esbaforida, correndo até o banheiro para enxugar 

o  suor  do  rosto.  Tomou  um  banho  demorado  e  preparou  uma 

pequena  mochila  onde  colocou  algumas  coisas  básicas  para 

passar  a  noite,  além  do  vestido  novo.  Era  sexta-feira,  e  o  pai 

havia  prometido  levá-la  a  casa  de  uma  amiga,  onde  dormiria, 

após voltarem de uma festa de aniversário. 

Suzane acabou de preparar-se e foi sentar-se na sala para 

esperar  o  pai,  que  prometera  chegar  por  volta  das  seis  e  meia. 

Ligou  a  televisão  para  passar  o  tempo  e  consultou  o  relógio. 

Faltavam  ainda  dez  minutos  para  as  cinco,  e  ele  deveria  estar 

saindo do trabalho naquele momento. Passaria antes para pegar 

a mãe no escritório de advocacia do qual era sócia, e só então os 

dois voltariam para casa. 

Aquele  fora  um  dia  exaustivo.  Suzane  se  preparava  para 

prestar o exame vestibular e passava grande parte de seu tempo 

estudando.  Acostumada  a  acordar  muito  cedo,  a  ladainha 

monótona  da  televisão  logo  lhe  cutucou  as  pálpebras,  e  ela 

adormeceu.  Ao  despertar,  a  noite  já  se  fazia  visível  da  janela,  e 

ela consultou o relógio.  

Passava  das  sete  e  meia,  e  os  pais  ainda  não  haviam 

aparecido.  Suzane  esfregou  os  olhos  e  desligou  a  televisão, 

chamando a empregada, que acorreu da cozinha. 

―  Chamou,  Suzane?  ―  perguntou  a  velha  senhora,  criada 

da casa fazia mais de quinze anos. 

― Meus pais telefonaram? 




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